Quando o mundo retroceder de vez,
os mais fracos que estão,
os errantes, os sujos, reféns de monturo,
de vozes franzinas,
que ecoam no escuro,
voltarão à vida!
Trarão nos silêncios
a nova mensagem,
do amor e da paz, esquecida!
E a foice da morte, ainda a garimpo,
ainda atuante,
sibilará
nos becos, seus segredos;
plantará nos pseudolimpos,
a ferida, o medo,
a sânie constante...
Até quando o primeiro sol azul
se aquecer no horizonte!
E assim, os covardes ver-se-ão valentes
terão vozes, sem línguas nem dentes,
e sem pernas, pro coração andarão;
ribombarão
de seus pulsos plantados de tempo,
velhas canções, novíssimos ventos!
Ventos que lhes ressurjam, no entanto,
novos pulsos, batimentos!...
e em tempo, mil purezas adamitas!
E nova tarde, cairá,
em fervorosos ventos tantos
que de canções, palpitam...
E tudo será novo
bem trabalhado, nos ouvidos,
os destroços secarão – tudo esquecido!,
e a árvore nascerá pura de males!
Seus frutos, por todos comidos,
frescos e cheios de sementes de razões,
apagarão os gemidos
dos sobreviventes caules!
Cantarão em uníssono, portanto,
as emoções,
os frutos novos,
os novos povos,
e nos faremos voz!...
...que aqui, então e ainda morta e mansa
sob à escuridão da noite aflita,
perene e atroz, à folha se lança,
cantando pra esta Terra parasita...
"Quando nasce o amor, em si,
renasce, pois, nas coisas
e as cores são cirandas..."
Osvaldo Fernandes
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Se Me Basto
Prometo pela inércia do meu corpo
e por toda inquietude de minh’alma,
que pra extorquir, da paz, rubis de calma
farei da Solitude um raro escopo!
Prometo e, num protesto, a ardor, contrário
a voz da Solitude me desdenha.
Diz da preciosa paz: – Pra que a obtenha
não bastará polí-la solitário...
– Eu só quero viver! Passar! Morrer!
E, só, ó paz! amá-la inteiramente!
– brados d’alma plangente de viver...
No seio, pois, se voz outra afastasse
a ideia de eremita e amar somente
a mim, talvez, só a mim não me bastasse!
e por toda inquietude de minh’alma,
que pra extorquir, da paz, rubis de calma
farei da Solitude um raro escopo!
Prometo e, num protesto, a ardor, contrário
a voz da Solitude me desdenha.
Diz da preciosa paz: – Pra que a obtenha
não bastará polí-la solitário...
– Eu só quero viver! Passar! Morrer!
E, só, ó paz! amá-la inteiramente!
– brados d’alma plangente de viver...
No seio, pois, se voz outra afastasse
a ideia de eremita e amar somente
a mim, talvez, só a mim não me bastasse!
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Ponho-me a Chorar
Ponho-me a chorar!
E estas gotas doces
verteriam rios
que se de amor fossem,
minha correnteza
a frio e certeza
encheria o globo
que seco e salobro,
se faria mar!
E inerte nas docas
como alma a afogar
então lembraria:
“Do amor fui-me um dia,
também, pororoca;
correntes de amar!"
(E se hoje sufoca
me ponho a chorar!)
E estas gotas doces
verteriam rios
que se de amor fossem,
minha correnteza
a frio e certeza
encheria o globo
que seco e salobro,
se faria mar!
E inerte nas docas
como alma a afogar
então lembraria:
“Do amor fui-me um dia,
também, pororoca;
correntes de amar!"
(E se hoje sufoca
me ponho a chorar!)
Tergiversante
Se entre a audácia e a timidez
estou sentado:
pro lado eu sorrio, cortês;
e corro de vez pr'outro lado..
estou sentado:
pro lado eu sorrio, cortês;
e corro de vez pr'outro lado..
No Tempo, No Vento
O alento que monta esta chuva.
A chuva montada no vento:
um cheiro de dor faz a curva;
um som virginal traz alento.
Um cheiro, um chio, um esgar:
a chuva no vento a montar,
molhando e levando o cinzento
início de dia: um momento
que nasce do vento, primeiro
e invade, e fareja, e certeiro
do peito se faz inspirar...
A chuva montada no vento:
um cheiro de dor faz a curva;
um som virginal traz alento.
Um cheiro, um chio, um esgar:
a chuva no vento a montar,
molhando e levando o cinzento
início de dia: um momento
que nasce do vento, primeiro
e invade, e fareja, e certeiro
do peito se faz inspirar...
A Passagem
A luz da Lua açoita, chicoteia
Meu torso com inacabáveis gumes
Sorvendo-me da carne todo o lume
que o espírito tremeluz,
bruxuleia...
Sua gravidade é vil, traciona forte
E saudosista arranca-me do chão
os pés da essência, à consecução
de luz clamando célere
mi’a morte!
Várias estrelas sentem e me rogam
— parecem tão vazias e franzinas —
ao espírito, longínquo,
vão e absorto.
Querem-me a luz! Encimadas se jogam:
— como pueris ribaltas tão meninas! —
mil purpurinas no ar;
e eu no chão... morto...
Meu torso com inacabáveis gumes
Sorvendo-me da carne todo o lume
que o espírito tremeluz,
bruxuleia...
Sua gravidade é vil, traciona forte
E saudosista arranca-me do chão
os pés da essência, à consecução
de luz clamando célere
mi’a morte!
Várias estrelas sentem e me rogam
— parecem tão vazias e franzinas —
ao espírito, longínquo,
vão e absorto.
Querem-me a luz! Encimadas se jogam:
— como pueris ribaltas tão meninas! —
mil purpurinas no ar;
e eu no chão... morto...
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Castiçais (Ao Meu Velório)
Do mais cálido ser, queimei de frio
como queimou minh'alma em toda lida
por todas estações, até o estio,
não triunfou d'invernos em minha vida...
Um vento frio é nada mais que vento
que o mais cálido ser soprou pra mim
para que então gelificado e enfim,
não fosse eu, pelo menos, num momento.
O talante inexiste neste corpo
como inexiste e é tão peremptório
o motivo no qual, ao meu velório,
lembrar-me-ão tão vivo (entanto morto)...
Confesso: tão mais vivos que inorgânicos
a animação, o desejo, e as vontades
inexistiram em mim, se babilônico,
e existiram sim! Se só em saudades...
Não sei por quê! Defesa, sim, talvez!
De não alquimiar dentro da pele
o que de amor produz só cardiocele,
o que achamos sentir com lucidez(!):
Os fogos corpulentos do desejo
só há nestas pessoas indefesas(!...),
pois quando enxergam fogaréus, eu vejo
apenas castiçais por sobre a mesa...
como queimou minh'alma em toda lida
por todas estações, até o estio,
não triunfou d'invernos em minha vida...
Um vento frio é nada mais que vento
que o mais cálido ser soprou pra mim
para que então gelificado e enfim,
não fosse eu, pelo menos, num momento.
O talante inexiste neste corpo
como inexiste e é tão peremptório
o motivo no qual, ao meu velório,
lembrar-me-ão tão vivo (entanto morto)...
Confesso: tão mais vivos que inorgânicos
a animação, o desejo, e as vontades
inexistiram em mim, se babilônico,
e existiram sim! Se só em saudades...
Não sei por quê! Defesa, sim, talvez!
De não alquimiar dentro da pele
o que de amor produz só cardiocele,
o que achamos sentir com lucidez(!):
Os fogos corpulentos do desejo
só há nestas pessoas indefesas(!...),
pois quando enxergam fogaréus, eu vejo
apenas castiçais por sobre a mesa...
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Poema Espelhado
Poema, feio és tu
possui sequer mensagem
fonema fraco qual és bem cru
apenas espelhado
flui, porém sem forma sua...
desconexo, é o poema, todavia
reflexo-poesia...
possui sequer mensagem
fonema fraco qual és bem cru
apenas espelhado
flui, porém sem forma sua...
desconexo, é o poema, todavia
reflexo-poesia...
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
terça-feira, 17 de agosto de 2010
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Há Sempre o Gosto
Um pouco de ti
eu era doce,
Um muito, salgado.
Um nada de ti
insípido. No tudo:
sabores
dum trago de amores!...
Minha língua
a mais agridoce que já tive,
ainda te lambisca,
ainda te escreve,
e teu gosto sempre ocorre:
da boca corre;
na mão escorre,
e pra folha vive...
eu era doce,
Um muito, salgado.
Um nada de ti
insípido. No tudo:
sabores
dum trago de amores!...
Minha língua
a mais agridoce que já tive,
ainda te lambisca,
ainda te escreve,
e teu gosto sempre ocorre:
da boca corre;
na mão escorre,
e pra folha vive...
Na Madrugada das Almas
Na madrugada das almas
não há sereno.
Senhoras, senhores
e baús acorrentados:
na madrugada de poeta,
sereno não há, tão frio.
Um timbre inaudível
não canta ou encanta.
Planta-se! E espantos
incrivelmente desfraldam...
Já me aceitei poeta
quando todos recolheram
dos olhos, suas almas...
não há sereno.
Senhoras, senhores
e baús acorrentados:
na madrugada de poeta,
sereno não há, tão frio.
Um timbre inaudível
não canta ou encanta.
Planta-se! E espantos
incrivelmente desfraldam...
Já me aceitei poeta
quando todos recolheram
dos olhos, suas almas...
terça-feira, 27 de julho de 2010
Vou Contando
I
Vou contando
as verdades
da vida.
Vou contando
que o céu não é azul
e o mar é pequeno.
Vou contando
que a vida é só vida
e que ninguém mandou vivê-la
senão o tinhoso interior
que nos manda...
Vou contando
e contando logo
que sou sociopata
e que talvez sejamos todos
e que talvez sejamos tolos
de amigar sem amizade...
Vou contando
que procuramos espelhos
e que os mais bonitos
são difíceis de quebrar
(e se quebram, azar!...)
Vou contando
que se não votar no amor
como pode sê-lo eleito?
Vou contando as coisas do peito
vou contando que não sou perfeito
vou contando a dor...
E vou me contando, um
dois, três...
Vou me contando nenhum
e todos de uma vez...
II
Vou contando
as pétalas da vida
e todas se esfalecem
de malmequer!...
Vou contando o bem-me-quer
que nunca é meu
que nunca é seu
que de ninguém é...
Vou contando
e contando mais:
vou contando sobre a paz
que só acontece quando criança
que quando adulto se esfaz
em toda insegurança...
Vou contando que não há bonança
apenas tempestade
vou contando quantas cidades
quantas metrópoles
quanta terra...
e vou contando que o belo
é fomentar guerra...
Vou contando
sobre os filhos
e os irmãos
no sangue que se derrama
vou contando toda aflição
de, sem coração, deitar-se à cama
vou contando
toda infinitude da solidão...
Vou contando
e perdendo tempo;
vou contando o tempo
e ele já não sobra
vou contando
o por quê da Obra
da Natureza:
é a certeza
de ser-se egoísta...
Vou contando
aos teístas
a existência do Nada.
E vou contando
até que o caminho da morte
seja a única estrada...
Vou contando
infinitamente
e não paro de contar
porque um'alma de poeta
jamais sossegará!...
Brincar de Amor
Brincar de amor é como porradinha:
um dá, já meio bronco, e põe o peso
do coração, e sempre sai surpreso
co’a força que não soube que continha...
O outro devolve como bumerangue
Quem diz que se pode sair ileso?
Quem sofre mais, é o amor indefeso
que se joga porque lhe está no sangue!
Brincar de amor é como porradinha:
Machuca, dói, até cair-se exangue
E no final, os dois, no estado langue
se apartam do amor sério que os mantinham...
Brincar de amor não pode! O amor é sério!
Quem é o amor pra machucar alguém?
Mas que machuca todos e ninguém
É bem verdade! Escolho o eremitério!
um dá, já meio bronco, e põe o peso
do coração, e sempre sai surpreso
co’a força que não soube que continha...
O outro devolve como bumerangue
Quem diz que se pode sair ileso?
Quem sofre mais, é o amor indefeso
que se joga porque lhe está no sangue!
Brincar de amor é como porradinha:
Machuca, dói, até cair-se exangue
E no final, os dois, no estado langue
se apartam do amor sério que os mantinham...
Brincar de amor não pode! O amor é sério!
Quem é o amor pra machucar alguém?
Mas que machuca todos e ninguém
É bem verdade! Escolho o eremitério!
Ao Eu-Lírico
Toda vez que um verso se fez possível
me fiz omisso a cada bom leitor,
que leu e não enxergou o que é adornado
em toda estrofe: um excerto horrível;
tão indizível como imane é a dor...
E ao se existir em cada coleção
o verso pulsa dor, intervalado
e, concomitante, o coevo humor
- tal como o tufo e infarto coração -
palpita as mãos, entope-as de recados...
Recado este que sai nas entrelinhas
fugaz, que acarinha se só ao fundo
pelos breves minutos enquanto escrevo
e sei que já, muito ao mundo, me devo
e já me doo, às almas que se alinham
e assim me alinho em mim, por um segundo...
E torno-me astro deste Universo
num uno verso, em leve purgação
que faz o seu caminho - em alinhamento -
sua paz, de ser poeta, em um só momento
este rapaz sedento em coração
que infarta por saber-se réu confesso
e se morre poeta, em cada verso...
me fiz omisso a cada bom leitor,
que leu e não enxergou o que é adornado
em toda estrofe: um excerto horrível;
tão indizível como imane é a dor...
E ao se existir em cada coleção
o verso pulsa dor, intervalado
e, concomitante, o coevo humor
- tal como o tufo e infarto coração -
palpita as mãos, entope-as de recados...
Recado este que sai nas entrelinhas
fugaz, que acarinha se só ao fundo
pelos breves minutos enquanto escrevo
e sei que já, muito ao mundo, me devo
e já me doo, às almas que se alinham
e assim me alinho em mim, por um segundo...
E torno-me astro deste Universo
num uno verso, em leve purgação
que faz o seu caminho - em alinhamento -
sua paz, de ser poeta, em um só momento
este rapaz sedento em coração
que infarta por saber-se réu confesso
e se morre poeta, em cada verso...
Amores de Verão
Tal como um amaldiçoado jardim
Meu coração viceja sua flora
Das raízes profundas solta afora
Um cheiro nauseabundo de alecrim...
O cheiro espanta o doce do jasmim
O acre toma o vento de hora em hora
A quem fareja: queima, se incorpora
Da maldição de amor: desdita e fim.
O outono passa, o inverno, a primavera
E o coração de velhas flores vive:
Em cheiros de lembranças emanentes...
Mas ao vir dos verões, quando acelera
Por um momento as maldições que tive
São só cheiros ao vento, novamente...
Meu coração viceja sua flora
Das raízes profundas solta afora
Um cheiro nauseabundo de alecrim...
O cheiro espanta o doce do jasmim
O acre toma o vento de hora em hora
A quem fareja: queima, se incorpora
Da maldição de amor: desdita e fim.
O outono passa, o inverno, a primavera
E o coração de velhas flores vive:
Em cheiros de lembranças emanentes...
Mas ao vir dos verões, quando acelera
Por um momento as maldições que tive
São só cheiros ao vento, novamente...
domingo, 25 de julho de 2010
Nascimento da Paz
Na relva
um bailado sepultante;
feixes candentes alumiam
toda a Passagem.
Um obus - trape! - soprando
e sorvendo sopros.
Sânie. Pus. Amareleza.
Lama. Gritos.
– Kawabanga!
Nas fumegantes trincheiras
pintores, que só descobrirão
o rubro;
poetas que nem mortos na glória
renascerão;
atores num palco real
que jamais se saberão heróis
ou vilões.
Naquela fronte
(naquela frente)
apenas um sorriso -
tão cândido, meigo, infante,
como aquele
parido pela mãe:
sua mulher.
Outra mãe – a guerra
parteja a Paz,
que vem – novíssima, nascendo
e chorando
lágrimas rubras
de um capacete gretado...
um bailado sepultante;
feixes candentes alumiam
toda a Passagem.
Um obus - trape! - soprando
e sorvendo sopros.
Sânie. Pus. Amareleza.
Lama. Gritos.
– Kawabanga!
Nas fumegantes trincheiras
pintores, que só descobrirão
o rubro;
poetas que nem mortos na glória
renascerão;
atores num palco real
que jamais se saberão heróis
ou vilões.
Naquela fronte
(naquela frente)
apenas um sorriso -
tão cândido, meigo, infante,
como aquele
parido pela mãe:
sua mulher.
Outra mãe – a guerra
parteja a Paz,
que vem – novíssima, nascendo
e chorando
lágrimas rubras
de um capacete gretado...
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Houve um Tempo
Houve um tempo
em que as palavras me procuravam.
Deitavam nos meus ombros
investiam em meus olhos
e despenhavam junto às lágrimas.
Houve um tempo de lágrimas;
houve um tempo de sentidos;
houve-me, um tempo, escrito.
O tempo passou
e minhas lágrimas - antes salobras -
tornaram-se insípidas;
insápidas;
enxutas...
Das palavras, o silêncio,
e do Nada, um som
num mar revolto
desta vaga mansa
que um dia deixei-me vogar...
em que as palavras me procuravam.
Deitavam nos meus ombros
investiam em meus olhos
e despenhavam junto às lágrimas.
Houve um tempo de lágrimas;
houve um tempo de sentidos;
houve-me, um tempo, escrito.
O tempo passou
e minhas lágrimas - antes salobras -
tornaram-se insípidas;
insápidas;
enxutas...
Das palavras, o silêncio,
e do Nada, um som
num mar revolto
desta vaga mansa
que um dia deixei-me vogar...
terça-feira, 20 de julho de 2010
Cadafalso Celestial

A chuva canta a marcha nupcial
e pouco a pouco os pés vão-se, buscando
– e os braços, num anseio, tremulando –
o amor, no cadafalso celestial...
Um por um, nos seus passos, revelando
a certeza de se querer casal.
O Salvador, na cruz, tão divinal
A todo amor de um tempo, abençoando.
Entorno os olhos brilham, a luz parece
da moça ao rosto, deitar suas mãos;
premer no moço ao lado o coração;
soprar mil orações numa só prece.
Como passos marcados p’ra catarse
a seda arrasta a alvura, e se apresenta
rindo e chorando, o peito treme e esquenta
num desejo cabal de amancebar-se...
Quando no altar dos céus se aterram, unos
O diácono profere: “ – Eis os tais pombos!”
Nos mais cavos dos corações um bombo,
Revela: “– Os abençôo e os afortuno...
Da mais rica harmonia, o matrimônio!”
Lá fora a chuva aperta o canto e intenta
abençoá-los com lágrimas bentas
cantando junto núpcias com o harmônio.
Como poeta, acompanhar o rito
eu tento.... E ainda assim, fico vogando
ao céu, junto dos pombos emanando,
Mais amor do que venha ser escrito!
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Experiência
No silêncio do espelho,
entre a velhice e a juventude,
está minha alma
desenhada em amiúde.
entre a velhice e a juventude,
está minha alma
desenhada em amiúde.
Minha Natureza
Um dia eu sugeri ao Mundo permitir-me
E doá-lo um vislumbre de Pardais aos ares
Ainda que haja o medo quiçá de tu rires
Quando na Natureza do meu ser pousares...
Um dia eu permiti meu mundo para o Mundo:
As floras brejeirais. Os espinhos restantes
Ao infinito, os voos, sustidos de instantes
E a lenta alunissagem de pesar profundo...
Um dia arrependi-me de expressar a calma
deste universo interno: a ímpar natureza
dentre, a Mãe-Natureza e a de bilhares d’almas...
Foi quando, dentro em guerra, o Mundo eu questionei:
Que quero se lá fora afínica é a certeza
que a Natureza em mim, no mundo eu não verei?
E doá-lo um vislumbre de Pardais aos ares
Ainda que haja o medo quiçá de tu rires
Quando na Natureza do meu ser pousares...
Um dia eu permiti meu mundo para o Mundo:
As floras brejeirais. Os espinhos restantes
Ao infinito, os voos, sustidos de instantes
E a lenta alunissagem de pesar profundo...
Um dia arrependi-me de expressar a calma
deste universo interno: a ímpar natureza
dentre, a Mãe-Natureza e a de bilhares d’almas...
Foi quando, dentro em guerra, o Mundo eu questionei:
Que quero se lá fora afínica é a certeza
que a Natureza em mim, no mundo eu não verei?
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Pouso Leve
Pousar de leve a mão nas tuas mãos
– ligeiro escuro; ao sol olhos brilhando
e nas penumbras pálpebras sambando –
pousar de leve em seu, meu peito então...
Levantar vôo, o coração, na boca
– apoteose, e fez-se a escuridão
do esgar, da piscadela... – por que não
levantar vôo, o coração... da boca?...
Pulsantes, num dueto, vão tentando
– dois corpos em dois corpos se afogando –
mudos, desta volúpia, uma canção...
Um som sublime, um ritmo inconstante;
o acorde, um gozo, e lá do céu, lançantes,
pousando, os corações, leves, nas mãos...
– ligeiro escuro; ao sol olhos brilhando
e nas penumbras pálpebras sambando –
pousar de leve em seu, meu peito então...
Levantar vôo, o coração, na boca
– apoteose, e fez-se a escuridão
do esgar, da piscadela... – por que não
levantar vôo, o coração... da boca?...
Pulsantes, num dueto, vão tentando
– dois corpos em dois corpos se afogando –
mudos, desta volúpia, uma canção...
Um som sublime, um ritmo inconstante;
o acorde, um gozo, e lá do céu, lançantes,
pousando, os corações, leves, nas mãos...
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Desejo de Sono
Os dias vão passando
céleres e esguios...
As dores, todas elas, acompanham.
O tempo não completa mais o vazio.
Nem o vazio, completa o vazio.
As articulações apanham
do frio se agigantando...
A Morte parece estar logo à frente
e em cada Noite se me deita
fazendo companhia às ilusões –
há muito olvidadas,
mas que ultimamente
revivo-as, mais do que o instante;
mais do que a mente –
ocupando a vaga vazia
ao lado esquerdo do peito...
Mais uma noite, insone.
Doído, procuro a aventurança
mas os horizontes são cúpreos;
meus olhos depressivos os fitam
e através da janela
tentam tangê-los,
mas logo se fecham,
para chegada do sono.
Sem perceber mais dores ou decepções
estico meu braço ao lado.
A morte me esquenta; me consome
e finalmente durmo
com um último abraço de amor...
céleres e esguios...
As dores, todas elas, acompanham.
O tempo não completa mais o vazio.
Nem o vazio, completa o vazio.
As articulações apanham
do frio se agigantando...
A Morte parece estar logo à frente
e em cada Noite se me deita
fazendo companhia às ilusões –
há muito olvidadas,
mas que ultimamente
revivo-as, mais do que o instante;
mais do que a mente –
ocupando a vaga vazia
ao lado esquerdo do peito...
Mais uma noite, insone.
Doído, procuro a aventurança
mas os horizontes são cúpreos;
meus olhos depressivos os fitam
e através da janela
tentam tangê-los,
mas logo se fecham,
para chegada do sono.
Sem perceber mais dores ou decepções
estico meu braço ao lado.
A morte me esquenta; me consome
e finalmente durmo
com um último abraço de amor...
terça-feira, 29 de junho de 2010
Isabella
A fabulosa janela
Abre-se em sonhos azuis!
Cada noite houvera luz:
Voar, sonhara Isabella...
Sonhos de brinco e futuro:
Dança, balé, ser artista
Librar nas saladas-mistas
Voar por colos seguros!...
Na fabulosa janela
Uma noite houvera sombra:
Varonil vento na alfombra
Levara ao céu, Isabella
Como a seus sonhos, ao fim:
Asas paternas carmins...
Abre-se em sonhos azuis!
Cada noite houvera luz:
Voar, sonhara Isabella...
Sonhos de brinco e futuro:
Dança, balé, ser artista
Librar nas saladas-mistas
Voar por colos seguros!...
Na fabulosa janela
Uma noite houvera sombra:
Varonil vento na alfombra
Levara ao céu, Isabella
Como a seus sonhos, ao fim:
Asas paternas carmins...
Um Faminto
A Alberto de Oliveira
Na sarjeta migalhas e um faminto
Catando-as como das estrelas, brilhos
Há muito se perdeu, se fez extinto
No vácuo deste céu, como andarilho.
Urra a dantesca fome e esperançoso
como Tântalo, se prefere em morte
enquanto escolhe o sul, vai-se pro norte
a sorte, a essência, o destino animoso.
Rogam suas pernas comiseração
Já não andam. Parado, e em desalinho
na sarjeta esmaiado, eis o glutão...
Cada migalha afasta-o do caminho!
Assim faminto, vive o coração.
Assim meu coração vive magrinho...
Na sarjeta migalhas e um faminto
Catando-as como das estrelas, brilhos
Há muito se perdeu, se fez extinto
No vácuo deste céu, como andarilho.
Urra a dantesca fome e esperançoso
como Tântalo, se prefere em morte
enquanto escolhe o sul, vai-se pro norte
a sorte, a essência, o destino animoso.
Rogam suas pernas comiseração
Já não andam. Parado, e em desalinho
na sarjeta esmaiado, eis o glutão...
Cada migalha afasta-o do caminho!
Assim faminto, vive o coração.
Assim meu coração vive magrinho...
A Morte da Língua
Dos poemas, fugiram suas funções
E nada lhes restou, nem pleonasmo!
Duma abundância de aliterações
Os versos caminharam pro marasmo...
Fugiram, dos poemas, intenções!
Afugentadas de um acre sarcasmo!
Assassinaram versos – corações
Roubando da leitura o entusiasmo!
Não há mais poesia! Há nada, há luto
nem pra contar história o anacoluto
sobreviveu pra dar fluidez sintática.
Chorando do epitáfio do lirismo
leu-se, em gotas de orvalho, um eufemismo:
"Aqui descansa a língua da gramática."
E nada lhes restou, nem pleonasmo!
Duma abundância de aliterações
Os versos caminharam pro marasmo...
Fugiram, dos poemas, intenções!
Afugentadas de um acre sarcasmo!
Assassinaram versos – corações
Roubando da leitura o entusiasmo!
Não há mais poesia! Há nada, há luto
nem pra contar história o anacoluto
sobreviveu pra dar fluidez sintática.
Chorando do epitáfio do lirismo
leu-se, em gotas de orvalho, um eufemismo:
"Aqui descansa a língua da gramática."
terça-feira, 22 de junho de 2010
Que Então Possa Dizer
Talvez, quando eu morrer, tão condizente
este poema, quando lerdes, seja
com tudo que um poeta se deseja:
trazer de volta à vida a sua mente...
Que ainda morto, e falto, e ineloquente
inda possa dizer do que pragueja;
inda possa viver, pois, sem peleja
com que se achou viver quando presente...
Então me vou! Morrer! Ficar ausente
porque se a vida é mesmo este presente
que dizem “Deus nos deu”, já não apraz...
E deixo que conteis quando me for:
se ausente sempre estive para o amor
morto ou vivo estivesse, tanto faz!...
este poema, quando lerdes, seja
com tudo que um poeta se deseja:
trazer de volta à vida a sua mente...
Que ainda morto, e falto, e ineloquente
inda possa dizer do que pragueja;
inda possa viver, pois, sem peleja
com que se achou viver quando presente...
Então me vou! Morrer! Ficar ausente
porque se a vida é mesmo este presente
que dizem “Deus nos deu”, já não apraz...
E deixo que conteis quando me for:
se ausente sempre estive para o amor
morto ou vivo estivesse, tanto faz!...
sábado, 19 de junho de 2010
Tragam a Poesia de Volta
Eu rogo:
Tragam a Poesia de volta!
Recolham todas as minhas partes!
Tragam-se as Artes!
Peguem minhas pernas no Maracanã.
Onde as gramíneas as vivificaram
com saudades de Poesia.
Peguem meu Coração
que pulsa quente
na massa fria e polar.
Não deixem a Poesia morrer!
Não deixem o amor bafuntar!
Tragam também
meus punhos:
lá nos planaltos da tez;
lá onde nasceu o carinho;
lá, além de qualquer ninho;
tragam os que tocam,
os que criam,
os que falam!...
Peguem os punhos
que jamais socaram a Poesia.
Tragam a Poesia de volta!
Recolham as artes!
Façam vivas as minhas partes!
Tragam meus olhos
que planam por entre os vãos;
que míopes, ainda são sãos;
que mortos, ainda verão!...
Tragam meus ouvidos
e façam-se ouvirem os feridos;
amigos, verdade, saudade;
façam-se ouvirem com vontade
os sons jamais percebidos.
Tragam a Poesia de volta!
Tragam-me a vida de volta!
Tragam a Poesia de volta!
Recolham todas as minhas partes!
Tragam-se as Artes!
Peguem minhas pernas no Maracanã.
Onde as gramíneas as vivificaram
com saudades de Poesia.
Peguem meu Coração
que pulsa quente
na massa fria e polar.
Não deixem a Poesia morrer!
Não deixem o amor bafuntar!
Tragam também
meus punhos:
lá nos planaltos da tez;
lá onde nasceu o carinho;
lá, além de qualquer ninho;
tragam os que tocam,
os que criam,
os que falam!...
Peguem os punhos
que jamais socaram a Poesia.
Tragam a Poesia de volta!
Recolham as artes!
Façam vivas as minhas partes!
Tragam meus olhos
que planam por entre os vãos;
que míopes, ainda são sãos;
que mortos, ainda verão!...
Tragam meus ouvidos
e façam-se ouvirem os feridos;
amigos, verdade, saudade;
façam-se ouvirem com vontade
os sons jamais percebidos.
Tragam a Poesia de volta!
Tragam-me a vida de volta!
Sonífero
O sono visita.
Apaga-me a luz.
No meio do escuro,
estrela cadente
Transpassa, corisca,
e canta; e seduz.
Num risco me vou!
De encontro com nada,
quer vou cavalgada,
quer vôo, revoada
eu vou! E eu vou!
Vou ter com a estrela!
Cadente por tê-la
eu vou! E eu vou!
No meio do cinza,
Eis álgicas cruzes:
- Nós somos os sonhos
daquele são sono
que tu mesmo induzes!
No meio do claro:
- Eu vou, eu tô indo;
eu vou, sou o sono
sou seu grande sonho
viajando em luzes
tal como um menino!...
Apaga-me a luz.
No meio do escuro,
estrela cadente
Transpassa, corisca,
e canta; e seduz.
Num risco me vou!
De encontro com nada,
quer vou cavalgada,
quer vôo, revoada
eu vou! E eu vou!
Vou ter com a estrela!
Cadente por tê-la
eu vou! E eu vou!
No meio do cinza,
Eis álgicas cruzes:
- Nós somos os sonhos
daquele são sono
que tu mesmo induzes!
No meio do claro:
- Eu vou, eu tô indo;
eu vou, sou o sono
sou seu grande sonho
viajando em luzes
tal como um menino!...
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