Por sob olhar queimoso do astro-rei
coser todo suor que toma a leira,
dos que da terra adoram, na bandeira,
tal como um povo unido fosse lei.
Tingir, seja o plebeu ou seja o rei,
rainha ou tal a simples costureira
assim como atingisse a cor certeira,
num pano, todo orgulho de uma grei.
Fazer estremecer da haste a certeza
que as brisas trazem sonhos agoureiros
e tempos alvos nesta amareleza...
Contar vinte uma estrelas por aí
E ter certeza, todo brasileiro,
que há céu desde Oiapoque até o Chuí!
Deitado nesta cama de doentes
um medo me resvala impetuoso.
Quisera eu ser de um mundo mais ditoso,
Pacífico, impoluto e quiescente!
Agora, em meio a tanto entorpecente,
profiro um credo, um rogo desejoso
de quando, como agora, desgostoso
sombrio eu era, ainda adolescente:
"– Venha buscar-me, ó Morte! Venha logo!"
Um choramingo eu ouço quando a rogo
deitado no meu leito, exausto e laxo.
Empunha um bisturi, começa o corte:
numa explosão de brilhos sinto a morte,
como gota escorrendo foice abaixo...
Fiquemos sós, querida.
Eu menos tu. Só de ti, só de nós.
Fiquemos livres, vivos! Fiquemos contidos nas nossas almas.
Deixemos que o corpo – templo da ignorância e da farta burriquice – aprenda, sozinho, como se morto inda existisse.
Fiquemos soltos e alados;
sossegados, perdidos ao hálito do vento,
que um torvelinho, no templo, se nos lembrará.
Fiquemos sós, querida.
E num próximo encontro, menos terno
o gozo que teu corpo me herdas,
num gemido silente, terás por eterno.
Nossas almas, completas de nós, serão a Natureza.
E do corpo, a torvelinhos, se ouvirão os uivos, se ficarmos sós.
Fiquemos sós, querida.
Para sempre.
Furtam meus olhos pelos seus trejeitos
O Olhudo, O Aquarela e O Nemo-velho.
Planam pelo aquário me chamando,
pousam suas barbatanas no escafandro
que lhes renova todo oxigênio.
Admirado, levo as mãos ao vidro,
(assim minha alma é, quando mostrada?)
não fogem, não se movem, ficam lindos!
E eu lembro a velha solidão que me enche
quando digo um olá e ouço três nadas...
Uma poeira presa
à quina da parede.
Passeia distraído
um cachorro ao seu lado.
O acaso é este cachorro
de poeira se enchendo.
É a transformação
de um destino ocorrendo.
Modifica-o com o tempo,
e o tira a origem, cor,
é o que o acaso faz!
(pro estímulo ou langor)
A poeira – o destino;
Nasceu sem liberdade!
O acaso torna fado
outras mil realidades.
E se eu fosse liberto
veria os seus sinais
sutis, que modificam
a minha vida inteira?
Não sei. Sou desligado
ao que vem na dianteira.
Não nasci pra cachorro,
mas sei: serei poeira...
E lá se vai bailando pelo ar
com seu vestido prateado, a moça
do morro, da cidade, da favela,
bailando, cintilante, lá vai ela,
avista um morenão alto, simpático,
de cabeça lhe alveja o coração,
perfura-lhe o amor, queima, mutila
e pousa, úmida e rubra, pelo chão...
Quando o teu corpo
eu encontrar, tateá-lo-ei
com as línguas das minhas mãos.
Com elas contarei
todos os meus sonhos!
Explanarei, suavemente,
sobre o meu amor por ti.
E quando, de mim, tudo
tiveres sabido
deixarei que as tuas
sejam meu ouvido
a desbravar teus segredos...
Em um papel também renasce a vida.
Saem sons que de sonâncias evoluem
mediante emoções que afora fluem
ora no branco e ora cintilando...
A natureza é um poço de mudança.
Ora está noite, ora está luzida.
Assim que sou, enquanto estou versando.
Em branco só o que fica é a esperança
de mostrar emoção, fazê-los tê-la,
pois que em mim passa o dia, e tudo fora
também passa emoção, sentir, beleza:
tudo onde é branco nasce uma mensagem
como nascesse em nós, mil paisagens
como não vendo eu pudesse revê-la,
e se pintasse em nós, a Natureza!
Disso só soube ao espiar o céu:
A noite escreve imagens nas estrelas
enquanto escrevo letras no papel...
Uma ânsia, um enjôo, falta de ar!
Vejo a Terra diagonando em novo grau
Deglutindo a festa ao lado, lhe empoando,
e emanando um pútrido instante mortal!
Eu acordo: “- Ufa! Graças! Pesadelo!”
Não me agüento: chego às claras da janela
E tremendo inda lhe dou uma olhadela,
Há falanges e uma mão, ensangüentadas(!),
da vizinha! Morreu, ei-la esquartejada...
Um enjôo, um desmaio e estou no chão.
Todo horror que se me envolve, não quis tê-lo;
todo pesadelo é sério, e sonho, vão...
Se minh'alma em meu espírito transfundo;
no profundo faz nascer um novo eu,
quem sou eu se dois em um vivo no mundo
oriundo junto a outro que nasceu?
Um é muito! Dois é quando me confundo
E se não difundo o meu de todo o seu
Sei que se desvaneceu por um segundo
pra fecundo lhe saber – me aconteceu!
Ponho em frente sempre quando me aparece
o meu ser único, de instintos chacais,
que no entanto é racional, vívido e douto.
Desfraldar-lhe tento, enfim, faço até prece!
Pois melhor sempre quis ser, que este ser, mas
como posso ser mais eu se sou o outro?
À noite, quando todos adormecem
e hei ínfimo e único em mim mesmo,
um astro como trespassasse a esmo
num eterno vazio, me estremece.
A Morte se me punge o pensamento
– o mesmo, no silêncio das respostas,
lhe tem como afeição – e é pressuposta
a cessação dos meus questionamentos.
Alvejo os céus, enquanto inerte às mãos
um revólver, o ardil, se refestela
dum solitário negro que me irrompe...
À cabeça o dirijo – à escuridão! –
no céu, brilha um cometa e me congela;
um telefone toca e me interrompe...
Enquanto adormeço
em negrura e silêncio
uma menina pinta
ao som da passarada
mil cores em meu corpo...
Se algo te espanta na mudez
que resolvi por ter, num ponto
em que d’amor fui o mais tonto,
perdoa minha insensatez...
Se algo te espanta nesta ausência
afora a carne, ausência viva;
torna a saudade em ti, ativa,
conserva viva minha presença.
Que nem percebo; houvera em mim!
Moço da inércia, antes tão leino;
Castelo ocluso, de onde o reino
em trono amor, senta-se o fim.
Se algo te move e se agiganta
em devir triste, em desventuras,
revive e lembra da ternura
presente enfim, se algo te espanta...
Exilado
o dia,
por mim visto,
duma fresta na janela.
Quase o invejo
não fosse a noite
nua, sedenta
e menina
por trás das cortinas
da solidão...
Deleita o toque e às pálpebras deleita
Ver-te e sentir-te às retinas focadas.
Em seda grossa, a carne enviesada
Dos sorrisos, volúpias liquefeitas.
Acertas todo prumo ainda deitada
À graça, extenuada e satisfeita.
Tornas da pele, a mais fatal, eleita
Na areia de lençóis, colubreada.
Devolves-me o olhar, sibila, e chama.
Um chocalho perfura a minha mente,
retumba algo de amor e caio exangue,
sentindo, em teu deserto – a nossa cama –
ofídicas picadas, vorazmente,
fazer pulsar veneno onde era sangue...
Busquei no mundo em passos sáfios a viagem.
Busquei nos gritos duma aragem, meios, fins.
Busquei sozinho e nunca tive uma mensagem
Que então pudesse me fulgir se fui ou vim.
Segui ganhando as ruas rudes; das paisagens
Pensei fugir; pensei morrer. Sair de mim.
Cansei buscar! Tentei enfim numa chantagem,
Ter, coagindo a natureza, o meu jardim.
Jardim sublime em que germino-me entre as flores
para existência do meu ser, minh’alma exposta:
motivo o qual os pés caminham sobre as dores
que fortalecem quando entendo então que a esmo
ganhar o mundo é ilusão. Tenho a resposta:
destas viagens, a maior, fora em mim mesmo!...
Um violão, é o que sou.
As cordas vão vibrando, vão vibrando...
E toda minha vida vibra, quando,
na cova que renova, ressoando
a música, o som, a sintonia,
insistem me chamando, me lembrando
que sou só instrumento... de elegia!...
Ao trono da obra eu sento.
Soltarei do abstrato o que se quer real.
Tento uma estrofe.
Ponho-me afastado.
Contesto cada milímetro.
E soam-me milímetros, apenas.
Não me acredito e me questiono.
Esta prisão desaventurada!
Pra ser feliz... só se fosse completo em preto e branco...
...em timbre suave e bem ouvido.
Tímido e carmim. Ah! Eu seria.
Faria falecidos todos os fantasmas em horas de riso;
mas ponho-me afastado,
e me carece um gênio...
Quando a última luz
cingir-lhes a escuridão
os povos solitários
longínquos, céleres – aos brados
terão da solidão
o eco que a produz.
Terão, nas vagas da luz,
um deslize de existência.
Se afastarão da sapiência,
e ter-se-ão, solitários
perante a cruz,
em rezas de ermitério.
Louvarão pelo mistério,
e por todos os outros,
aparentemente felizes
povos lindeiros:
serão chamados loucos,
desgraçados, aprendizes
andadeiros!...
Do tempo furtarão
a dificuldade das horas
que se transfazem em martírios
irrelevantes à solidão.
E surgirá o delírio,
dum vazio em que o eco de solidão
completava outrora...
E assim, sozinhos,
(em seus corações)
os reféns do atemporal,
caminharão sem tropeço,
por toda escuridão.
Terão carinho e apreço
pelos que em outro caminho,
- o da luz racional –
são moucos, tarecos
fechados aos ecos,
de incertos clarões:
os mais solitários,
perdidos,
ermitões...
Compromisso em minha vida é anacrônico.
Planejado numa agenda desfolhada:
Não tem data, nem destino ou dia certo.
A segunda pode ser domingo ou sexta.
Pode estar fazendo frio absoluto
No solstício de verão.
Por entre as entranhas
da Casa Assombrada
vivia, calada
minh’alma tacanha...
Na pele – a fachada
em que rugas pendem
no disforme alpendre –
ela está trancada...
O corpo a rejeita
(qual casa que expulsa
tristezas, repulsas
dum'alma imperfeita...)
Mas inda se habita
na casa – o meu corpo.
Um abalo torto
Treme-lhe e palpita.
Minh’alma se esconde.
Meu corpo estremece.
Nem a melhor prece
que há, me responde
Do escuro que dura,
do alarde indevoto!
Mais um terremoto!
A alma se fratura.
Em cacos e exangue
Roga por viver.
Serpeia sem ver.
Levanta-se: há sangue.
Enquanto adoece
E um choro lhe aperta
No sal se liberta!
Da casa esvanece...
No corpo – que é a mesma
tal “Casa Assombrada” –
não vive mais nada,
só resta avantesmas...
Uma mulata! É como adentro sinto:
as dores vão sambando pelo corpo
e quando param de dançar pressinto
que no próximo mês estarei morto...
O samba vai tocando e então absorto
esqueço até da dor, (será que minto?)
Mas volta a ressoar um bumbo torto
que já volta a apagar com vinho tinto!
O álcool no salão embaça a dama
e as dores somem, mas acabo imundo,
Embriagado e sujo em minha cama...
— Quem tanta dor aguenta? Como pode?
Nem isto importa quando ouço lá fundo
setenta mil bandinhas de pagode...
Quando o mundo retroceder de vez,
os mais fracos que estão,
os errantes, os sujos, reféns de monturo,
de vozes franzinas,
que ecoam no escuro,
voltarão à vida!
Trarão nos silêncios
a nova mensagem,
do amor e da paz, esquecida!
E a foice da morte, ainda a garimpo,
ainda atuante,
sibilará
nos becos, seus segredos;
plantará nos pseudolimpos,
a ferida, o medo,
a sânie constante...
Até quando o primeiro sol azul
se aquecer no horizonte!
E assim, os covardes ver-se-ão valentes
terão vozes, sem línguas nem dentes,
e sem pernas, pro coração andarão;
ribombarão
de seus pulsos plantados de tempo,
velhas canções, novíssimos ventos!
Ventos que lhes ressurjam, no entanto,
novos pulsos, batimentos!...
e em tempo, mil purezas adamitas!
E nova tarde, cairá,
em fervorosos ventos tantos
que de canções, palpitam...
E tudo será novo
bem trabalhado, nos ouvidos,
os destroços secarão – tudo esquecido!,
e a árvore nascerá pura de males!
Seus frutos, por todos comidos,
frescos e cheios de sementes de razões,
apagarão os gemidos
dos sobreviventes caules!
Cantarão em uníssono, portanto,
as emoções,
os frutos novos,
os novos povos,
e nos faremos voz!...
...que aqui, então e ainda morta e mansa
sob à escuridão da noite aflita,
perene e atroz, à folha se lança,
cantando pra esta Terra parasita...
Prometo pela inércia do meu corpo
e por toda inquietude de minh’alma,
que pra extorquir, da paz, rubis de calma
farei da Solitude um raro escopo!
Prometo e, num protesto, a ardor, contrário
a voz da Solitude me desdenha.
Diz da preciosa paz: – Pra que a obtenha
não bastará polí-la solitário...
– Eu só quero viver! Passar! Morrer!
E, só, ó paz! amá-la inteiramente!
– brados d’alma plangente de viver...
No seio, pois, se voz outra afastasse
a ideia de eremita e amar somente
a mim, talvez, só a mim não me bastasse!
Ponho-me a chorar!
E estas gotas doces
verteriam rios
que se de amor fossem,
minha correnteza
a frio e certeza
encheria o globo
que seco e salobro,
se faria mar!
E inerte nas docas
como alma a afogar
então lembraria:
“Do amor fui-me um dia,
também, pororoca;
correntes de amar!"
(E se hoje sufoca
me ponho a chorar!)
Se entre a audácia e a timidez
estou sentado:
pro lado eu sorrio, cortês;
e corro de vez pr'outro lado..
O alento que monta esta chuva.
A chuva montada no vento:
um cheiro de dor faz a curva;
um som virginal traz alento.
Um cheiro, um chio, um esgar:
a chuva no vento a montar,
molhando e levando o cinzento
início de dia: um momento
que nasce do vento, primeiro
e invade, e fareja, e certeiro
do peito se faz inspirar...
A luz da Lua açoita, chicoteia
Meu torso com inacabáveis gumes
Sorvendo-me da carne todo o lume
que o espírito tremeluz,
bruxuleia...
Sua gravidade é vil, traciona forte
E saudosista arranca-me do chão
os pés da essência, à consecução
de luz clamando célere
mi’a morte!
Várias estrelas sentem e me rogam
— parecem tão vazias e franzinas —
ao espírito, longínquo,
vão e absorto.
Querem-me a luz! Encimadas se jogam:
— como pueris ribaltas tão meninas! —
mil purpurinas no ar;
e eu no chão... morto...
Do mais cálido ser, queimei de frio
como queimou minh'alma em toda lida
por todas estações, até o estio,
não triunfou d'invernos em minha vida...
Um vento frio é nada mais que vento
que o mais cálido ser soprou pra mim
para que então gelificado e enfim,
não fosse eu, pelo menos, num momento.
O talante inexiste neste corpo
como inexiste e é tão peremptório
o motivo no qual, ao meu velório,
lembrar-me-ão tão vivo (entanto morto)...
Confesso: tão mais vivos que inorgânicos
a animação, o desejo, e as vontades
inexistiram em mim, se babilônico,
e existiram sim! Se só em saudades...
Não sei por quê! Defesa, sim, talvez!
De não alquimiar dentro da pele
o que de amor produz só cardiocele,
o que achamos sentir com lucidez(!):
Os fogos corpulentos do desejo
só há nestas pessoas indefesas(!...),
pois quando enxergam fogaréus, eu vejo
apenas castiçais por sobre a mesa...
Poema, feio és tu
possui sequer mensagem
fonema fraco qual és bem cru
apenas espelhado
flui, porém sem forma sua...
desconexo, é o poema, todavia
reflexo-poesia...