sexta-feira, 26 de março de 2010

Nuvem e Torrente

No céu
uma nuvem
em forma de musa
sopra um coração.

Vejo esvoaçar sonhos
e todos me cabem!
De enleio, voejo-lhos,
num sobejo tê-los!

É quando um trovão
avisa-me a torrente de amor!
Embaixo disso tudo
me deixo, de braços abertos,
nas gotas de chuva
padecer!...

quinta-feira, 25 de março de 2010

Velhice

Não vi a velhice chegar!
Não a vi espreitando
na decepção que se fez forte;
no desamor que pareceu morte
num coração amando
e logo deixando de amar...

Não vi a velhice chegar!
Não a vi no branquejo
dos meus cabelos
porque o único espelho
era o branco desejo
de não tropeçar...

Não vi a velhice chegar!
A velhice d'alma!
Hoje sinto esta descalma
me imbuir fortemente,
e eu triste, tristemente,
torno grisalhos os sonhos
e negra a realidade:

A velhice d'alma chegou!
E nos sonhos envelhecidos;
e naquelas memórias vis,
a realidade se fez nada;
a existência se fez laxa;
e o novo que eu quis
inda não desabrochou.

E não desabrochará
enquanto de espinhos
a flor for demasiadamente cheia;
a essência, de mente reprimida,
ainda que erroneamente repleta!...

A velhice chegou
e esta alma de poeta,
se revelando, bramou:

- Quando fui ouvida,
fiz dos teus sonhos,
meus versos:
novo universo
onde as quimeras
são reais
e a realidade
o maior sonho já vivido!

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Poema

Quem dera, ter na vida, escrito fácil
O poema mais vivo, mais marcante
Vestido em smoking rútilo e grácil
Na passarela, em estofa exuberante!

Quem dera, as minhas mãos, na Flor do Lácio
Dedilhando Bilac, inebriante...
Quem dera, uma vez só, não ser pascácio
Colecionando pua - um coadjuvante!...

Quem dera o metro, a poesia exímia;
e fazer do meu nome metonímia
nas classes que se gozam do lirismo!

Quem dera-me poeta! E sem algema!
Co'alma nos dedos: divino poema
por vosso globo produzindo sismos!

terça-feira, 9 de março de 2010

Feição

Fitar na pele a poesia bela
quando em meus olhos tornarem flagrantes
sublimes traços vivos no semblante:
Entrar em transe no sorriso dela...

Deixar-me os olhos fitos, meliantes
roubarem as feições que se revelam
como arco-íris invadindo janelas
dos olhos que ora fitam, coruscantes!

Ver-se perdido – num instante infindo
nos traços fortes. E à bochecha vê-se
uma trincheira lírica formando...

Ter dela os traços: os versos mais lindos!
E ao rosto a poesia de onde lê-se
um Deus Poeta, sublime, versando...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O Beijo à Flor

Ó belo Beija-Flor, por que não voa
de volta à Flor, e espera teu ensejo?
Por que da Flor não conseguiste o beijo?
Ou bem, talvez, por que a deixaste à toa?

Mal sabes que há também, na Flor, o adejo
de quando suas folhas desgrilhoam
E assim, despetalada, se revoa
às nuvens pra buscar-te num voejo!

Mas levadas, as pétalas, no vento
voaram, Beija-Flor, pr’aquele sumo
deixado, dos teus beijos, ao relento!

Pairando cinzas, ao ar, como fumo:
o Beija-flor adejando tormento;
e a Flor, despetalada, sem ter rumo...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Quem Dera Poder

Quem dera poder
A vida dos cravos!
Viver mais, bastassem,
apenas, todos os cautos intuitos.

Quem dera poder
menos poder, tudo.
Quem dera, contudo,
poder sobre o poder...

Anonimato

Num cubículo abafadiço e claustro
Onde suas mãos dão vida a seu diploma:
As mesmas que engendram mil parnasos
As mesmas que são vãs – vivem de coma...

As doenças se vão! E ao que parece
Nos traços destas mãos são convolutas
Diminuem, subtraem seu metro
Vertendo-se nas fábulas minutas...

A vida passa, é lassa, descompassa.
Um diário se torna mais diário
E num piscar d’olhos, o acaso bel:

A morte chega – a luz me ultrapassa
Corta o carme – cacos de relicário:
Anjos de Luz me lendo lá do céu...

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A Prostituta


Eu amo esta rameira! Eu a amo tanto!
É jarro onde toda dor deposita
Objeto adornado – de quebranto –
Souvenir para um lírico eremita!...

Coxas em vírgula, pulando o canto
Da volúpia: deitada, a bonequita
Pequenina; bebendo do meu pranto
E derramando-se ao lençol, catita!

Elegante sopra, freme e esfumaça
Os torvelins do cerne – me arregaça
Toque; ponto final – apoteose!

Eu amo esta rameira! A prostituta:
Aliciante verve que debuta;
Na lira se insinua e faz que goze...

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Conjúgio


Casei com a poesia...
e fiz amor com os versos.
Hoje, uma estrofe me disse:

"- Há pedras no caminho..."

Pois então, pulo vírgulas...
no intuito de um amor perene...

sábado, 16 de janeiro de 2010

O Galho


O galho não é mais tão esponjoso.
Suas folhas vão caindo; caindo vão.
E o solo viça, em mato, seu perdão
Espalhando-se em barro pegajoso.

O galho quebra e um baque estrondoso
caminha pelas seivas, pelo vão
entre a casca e a falta de verão
como teu coração floral, queimoso.

E os gravetos tão já horrorizados
clamam a Deus, a glória, a sorte, a vida
por uma raiz amadurecida.

Na qual se podem béis e acomodados
como se acomodou o galho à morte
e à Fonte se voltou florido e forte!

Do Que Dentro Está Cheio


Do que dentro está cheio, tenho medo
pois, que serei lá fora, se na sombra
caminho, e todos os passos alombam
de encontro ao invisível nada ledo...

O que está dentro, grita-me, ribomba
e não ouço mais tarde, nem tão cedo
deveras nunca ouvi: ouvidos quedos!
Mas mãos-tímpanos libram como pombas...

Columbinas, papos-de-ventos, quais
destas aves voando pelas mãos
os demônios, de mim, mostrar-se-ão?

Cá dentro estou tão cheio destes ais
e nem sei se friamente sou capaz:
lavar as mãos, que os eus, revelarão!

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Som dos Sinos


Por mil caminhos vadiando torto
meu passo calejado e tão franzino
não anda avante, mais parece morto
parado em porto, de chagas, ferino

Mas eis que no solto andejo, absorto,
ouvi junto ao meu passo ternos sinos
do amor, a tilintar sons de conforto
brincando o interior como um menino...

Vi-a sentada; seus olhos cravados
em mim e os meus nos dela. Repetindo
aquele estrondo das almas benquistas!

- Qual seu nome, ó Som Inusitado?
Questionei-o cá dentro, já sorrindo:
- Eu chamo-me Amor, à primeira vista!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Um Céu Que Não Foi Céu


Olhando o céu, um astro-rei me irrompe:
Que céu poder-se-ia tais cometas
queimosos, tão vis, como baionetas
que a tudo punge; que a vida interrompe?

- Se podem! Como infames bombardetas
lançadas fortemente nos portais
das feridas; dos mais medonhos ais
trasmutando humanos em estatuetas!...

Eu questionando, já petrificado
quebrei, como num céu, fragmentado
de um coração, sangrando irresoluto!...

Olhando o céu... eu costumava vê-la!
Mas se quebrou, despenhou suas estrelas
n'alvorada de azuis cacos fajutos!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Orangeburg


Um professor de geografia uma vez me falou:
- Conhece Orangeburg?
E eu respondi:
- Sim! É o lugar onde
o hamburguer que nos alimenta
é tão laranja
como o alvorecer em cena
levando embora a noite...

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Vejo

Vejo em teus pés
os cacos vermelhos
inda derramando...

Vejo ferida
vagar, sem saída
não cicatrizando...

Junto-me à morte.
Esquartejo a sorte
que nunca goteja!...

Perco minha vida
escureço minh'alma
e não mais me resto...

Universo Incomum


Tempo parado ante um novo Universo:
cada minuto passa de hora em hora
É como estou - vogando tão disperso,
tão pando, como o tempo está agora...

Um novo céu, de feiúme absterso:
Onde as estrelas do teu rosto, coram
E os teus buracos negros são reversos
Expelindo teus brilhos como auroras!

Teus olhos: vermelhíssimo arrebol!
Tua tez compõe a quentura do sol
- Ó Altíssimo Universo incomum!

E eu numa Lua longínqua, sentado
Pensei em ser teu astro - um namorado! -
mas brilhando em teu céu, fui só mais um!...

Duas Vidas


Eu vivo em mim, de fato, duas vidas
Uma, de sonhos, lauta e esperançosa
que se tornam poemas lindos, prosas
N’abstração e em letras, concebidas...

Outra de realidade pustulosa
que cria estrofes vis e fementidas
gerando poesia genocida
como fosse inferno em apoteose!

Eu quero é viver na desesperança
e fazer com o Agora uma aliança
exterminando o que, de sonho, existe!

Eu não vou esperar nenhuma sorte!
Pois morrerei, antes que venha a morte
Da esperança que última se insiste!

Efêmero


Tempo que passa o tempo e nunca passa
realmente, se alquebrado no Agora...
Tempos que contam horas tão já escassas
e engolem toda cor que houvera outrora...

Tempo sem tempo: velho ou tão menino
percorrendo os playgrounds da memória.
Tempo que esvai, que é como desatino
desvairado em conjecturas de glórias...

Tempo que pinta o céu todos os dias
do azul dulcíssimo, de branco ou gris
ou preto – à negritude do infeliz...

No sol a despontar no dia-a-dia:
O efêmero, se reflete, fulgente;
amareleza em manhãs do presente...

Sem Vida


Vejo em teus pés
os cacos vermelhos
inda derramando...

Vejo ferida
vagar, sem saída
não cicatrizando...

Junto-me à morte.
Esquartejo a sorte
que nunca goteja!...

Perco minha vida
escureço minh'alma
e não mais me resto...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Sr. Certeza


Como juiz que adocica tiranos
com sua uvada velhusca, inda úvida:
levemente umedece toda dúvida
que emudecia a vida em longos anos!

Bate o martelo, e o vinho de sua mesa
Parece se liquefazer nos crânios
e explode ao ar: se fulgem novos planos
como jamais fulgiram na incerteza!

E a ré – eis a Dúvida - em frente ao júri
diz-se inocente enquanto assassinava
porventura uma ideia incerta algures...

E os cidadãos - os jurados - de avença,
(os mesmos que do vinho degustavam)
sem dúvida souberam sua sentença!...

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A Tudo Tenho


Onde o ter? Nunca terei!
Se não posso e em meu assomo
Não querer ter, quererei!
Querei ter? Onde o ter? Como?

Entre arranha-céus e escombros;
Ou a escuridão, cegueta,
e à luz, de mil cometas
P’ra que ter? Dou de-me ombros!

Querei nada! A tudo tenho!
Vedes florestas – arbustos?
Vejo mãe-verde e seus bustos
nus e a mim, menos ferrenhos!

Tudo tenho! Não sabeis?
Rosas em campos no céu
Prosas com belas ao léu
no firmamento: olhos-reis!

Venham, venham os trovões!
Pondo suas tubas em punho
Algazar mil caramunhos
que não ouvem suas canções!

Os passarinhos cantantes
Que no cerne, inda que mudos
são de tudo: tartamudos,
pagodeiros; consonantes!

E o Pardal, tão belo deus!
Tão agreste e tão de casa
tão de todos, mas tão meu!
Tão mais meu que os tenho as asas!

Tudo tenho! Meus ouvidos
São trementes alaúdes
retornando em amiúde
iracundos carcomidos!

Eu não desejo o amor!
Nem ser tão bem venturoso
Nem ser vão – vil! – desditoso.
Vede só! Onde há tal dor!?

E bem inda que pudesse
Ainda desejaria
Todo estio das poesias
que do quente-azul proviesse

Como flores em acenos
pululando em mi’a verve.
Tudo tenho! E tudo serve
tudo é tanto mais ou menos...

Que em companhia aos meus rastros
de estardes, sem céu, na Terra
possais acabar com a guerra
de me invejardes nos Astros!

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Estar Fora de Mim


Estar fora de mim, e ainda estar
por dentro, corroído e desalmado
ainda é estar por fora anuviado
e dentro certo que há o que se amar...

Estar fora de mim! Ah! Até voltar
e reparar os cacos já quebrados
dum espírito, mil vezes colado
é o caminho que eu nunca quis chegar!....

Estar fora de mim é tão melhor
mas há que se passar, pois o pior
à espreita sorve d’olhos mi’a candura...

Estar fora de mim como andarilho
não dá, se o coração não tem mais brilho
e dentro clama, cego, desventuras!

domingo, 20 de dezembro de 2009

À Musa de Ouro


Tive na vida inteira, a dois, remorsos:
Sonhos de céu, quebrando-se três vezes
em espaços vazios, descorteses
que se foram p’ro vácuo, sem ser Nosso...

Tive, pois, não mais tenho esta descalma!
Pois fizeste de um Nosso, ser um Quero
Tendo-me assim, em ações que enumero
nos dedos infinitos de minh’alma!...

Contigo, a vida é tão aurifulgente!
Como são teus cabelos, quando os vejo
esvoaçando sonhos benfazejos
que borbulham anímicos e crentes!

Sinto que a ti minh’alma se transmigra
e faz do teus sorrisos, domicílio,
e de tu’alma, o mais honroso exílio,
como em pátria dum Sonho que remigra!

E vou mostrar-te, em coração poeta
a lídima beleza deste mundo
e todo o amor, que de mim, oriundo
faz n’alma engendrar quimeras completas!

E vou mostrar-te, a ti, do que és feita!
No espelho dos meus versos, quando leres:
Do reflexo, o mais divino entre os seres,
qual prece que Deus concebeu, perfeita!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Trovões Internos


Lá fora ouço trovões mal-humorados
trazendo o tormento p'ra dentro à porta
desta alma viva que se sente morta
num limbo de porvir desesperado...

Lá fora, ouço também, vociferado
Um céu de nuvens gris zanzando tortas!
Que chorando torrencialmente aporta
na realdade de um devir quebrado!

Cá dentro o céu se doa para o inferno
a fim de lhe inundar de poesia;
bruxuleando, em dueto, fogaréus!

Cá dentro, é pacatez, dilúvio terno;
Trovões suaves cantam cotovias
E torvelins de sonhos fazem céu!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Ultimogênito


Finda-se aqui o sentimento tristonho
De um sonhador, que já morto de fome
fez da esperança seu único nome
por achar comestível qualquer sonho!

Finda-se, pois, aqui, defronte a morte
Aquilo qual achava, em si, seu sismo;
E engrenagem da vida - seu lirismo:
tremor que deitaria contrafortes!

Findam-se aqui - em versos - os meus versos
E findam-se felizes, ternamente
Porque, de sonhos cheios, toda mente
Carece sintonia do Universo!

Finda-se aqui, meu poeta - o eu-lírico!
Com a lança duma falta de ensejo
fincada no arcabouço do desejo
fingido, inverossímil, tolo e empírico!...

Morro-me à poesia, nasço homem
e deixo o último verso pra saudade;
minh’alma voga inteira na vontade
de não ter mais quimeras que me domem!

Morro pra tudo! E renasço ordinário
Divorciado do lirismo culto.
Da realdade - a me tornar avulto -
versejo à boca, e não dum dicionário!...

Morro! Meu sentir não se desespera
Pois sei, não serve ao mundo em que eu existo
e sei saber, por isso é que desisto
e abraço forte a vida que me espera!...

Morri! Nem sinto-lhe a falta, poeta
pois caminhei de encontro ao que queria
deixei meu sonho, à folha, em revelia;
e minh’alma, de vãs quimeras, quieta!

Poeta! Pegue o poema, autografe-o
postumamente! E solte-se de mim!
Que o ultimogênito poema, enfim
findou, publicado em seu epitáfio!...

Morto, Poeta, eu sei já o que fazer
- não mais em versos, ou sonhos d’outrora -
Vou conjugar os verbos cá de fora
sendo o sujeito que não pude ser!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Verbalizando a Vida


Cada um de nós,
leva o sol nos pés.
Aos siderais,
extraordinários,
de andejo:
calquem ao chão seus verbos;
tornem pandos seus quadrados!

Há muito espaço na Terra!
Há muita guerra,
e sarjetas frias!

Infinito é o espaço!
Infinita é sua ação!
Infinitos são!
[passos...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Revelação


Ah! Como amar a poesia, o carme
que não sou eu! Que não aceito a dor
de versos maculados dum pavor?
Como, de fato, posso revelar-me
poeta, de lirismo ocre, amador?

E como amar os versos que eu não fiz?
Ou se fiz, não se parecem meu verso?
Como, dentro de um espírito disperso
e imerso na poesia que eu não quis,
poder fazer-me parte do Universo?

Serei somente mais um ser que, em parte
Sente e escreve, reprime e cria... NADA?
Ou tudo que se cria é uma nonada
que se engendra do vazio da arte
e se desfaz, na folha, estatelada?

O que eu quero mesmo é coisa nenhuma!
Ser-me flocos fátuos, brilhando todo!...
com sentimento, diluído em lodo,
cativo a cavalgar por entre as brumas;
câncer oculto, tufo em linfonodos!...

Quem sabe um andarilho da poesia,
daqueles que com uma vil caneta,
aperta a tinta, faz chover cometas
no céu vil, tumular do dia-a-dia
fazendo a alma queimar todo planeta!...

Quem sabe, um nada bem cheio de tudo!
Um doudo, amalucado, o desvario!
Que cinge em verso quente e verso frio;
Que na ponta do lápis, assim, mudo,
muda o nada pro tudo, do vazio!

Quem sabe, seja só linha fadada,
A percorrer os olhos dos leitores,
E rutilar imagens d’alma, amores,
Pintadas no papel, bruxuleadas
em versos que aparentam-se indolores!?

Quem sabe? Eu não sei! Só quero estar,
nas mensagens que fiz, de modo errado,
vislumbrando um poeta mal formado
que não existe em mim, mas que se há
no carme, em versos, todo entrelinhado!

Ah! No dia que amar poesia,
o carme me dirá do que não li!
Assim como os pedaços que verti
na folha, esquartejados, saberiam:
no ponto final só eu quem morri!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O Vôo Infindo da Borboleta


Ah! Borboletinha!
Que te estás à toa?
Solta-te, revoa!
Rufla tuas asinhas!
Canta-nos! Reboa!

Paira ao fementido
te eleva ao mentido!
Faze o mundo cheio
de teu colorido -
luz de veraneio!...

Colorir, vem... ousa!
Pousa o céu na vida
nas nuvens, repousa!
Solta arremetida
sorrisos à chousa!

Voa até o inferno!
Faze dele nada
Torna-o livre, terno
solta avermelhada
cores d’alma alada
no adejar superno!

Voa até o céu!
E lhe espalha o rosa!
Choverá o laurel
da alvorada prosa
na noite revel
brilhando formosa!

Ah! Mi’a borboleta!
Veja! Quão cansaço!
Pousa-te em meu braço
Toca a cançoneta
Voa em pirueta!
E estremece o espaço!

Esquece quem tinhas!
Voa! Sem final!
Rufla tuas asinhas!
Ah! Borboletinha!
Vem para o Pardal!

A Busca Infinda do Pardal


Apruma as asas e voa!
Voa alto! Há no alvo!
Solta o bando dos papalvos!
Qu’isto torna pando. Ecoa,
Lá do céu, - canta e revoa! -
Faze-o, de vis cores, calvo!

Toma o cinza! Toca a bruma!
Voa avante; te plumeja!
Não te esquece! Voa e alveja
Toma todas e nenhuma
Luz azul à tua pluma!

Libra além do altimurado!
Traze o infindo às tuas 'bicas'!
Quebra o sol: o sorve; o pica!
Qu’este torna bem curvado,
Aos teus voos; paparica!

Ó Pardal que esvoeja:
Traze o céu e volve o lume!
Voa aquém de qual negrume!
Canta acima, purpureja,
Tua alma, vai-te... almeja,
Libertado ao teu tapume!

Risca o céu o triste; calibre!
Colore toda descalma
E vem cá ousar-te a alma:
Em fazer qu'amor se libre;
Em pousar-te à vida a calma;
Ó Pardal, vai! Voa livre!...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Relógio

Desenho: Osvaldo F.

Quero caminhar avante.
Detonar a inércia!
Acreditar no certo que se imagina.
Ter a certeza
que o não que me abomina
não faz do certo
menos imaginário.

Abominar é parar.
Acreditar é andar.
No fim, os fins se danam!
E o meio que vale!...
Que faz tudo... real!

Não me deixarei
ser relógio
hermeticamente rotundo
e fechado.
Num tic-tac
que tem sempre o mesmo som!

Que o ponteiro volte ao lugar de início.
Não quero minha vida relógio.
Não quero só tic-tac.
Eu tenho todas as onomatopéias do mundo!

Não quero, pois, este inferno:
A repetição
repetitiva
de tudo que se repete
repetidamente
como um tiquetaquear na parede!

A minha vida, até se pode relógio
mas de números infinitos
Como meus dias:
Com o mesmo céu.
A mesma natureza.
Posto que
em cada dia
um mundo novo
e infinito!

Eu quero o 25.
O 35.
O 1.006.
Eu quero os enes.
Os zilhões.

Cada dia algo novo.
Cada hora algo diferente.
Cada segundo... algo.
De verdade!

Quero a criação!
E não a repetição;
transformação.

Quero o toc-toc
de pés oníricos
a caminhar no chão do acaso.
Quero o descaso
de estar, diferentemente, errado!

Quero a novidade de tudo!
Dormir sem horas e acordar sem tempo!
Dormir cem horas
e ainda acordar no tempo!
Sonhar.. cem horas!
Mil! Milhões
na realidade do novo!

E realizar-me todas as horas
infindavelmente
como fosse um sonho!