Na relva
um bailado sepultante;
feixes candentes alumiam
toda a Passagem.
Um obus - trape! - soprando
e sorvendo sopros.
Sânie. Pus. Amareleza.
Lama. Gritos.
– Kawabanga!
Nas fumegantes trincheiras
pintores, que só descobrirão
o rubro;
poetas que nem mortos na glória
renascerão;
atores num palco real
que jamais se saberão heróis
ou vilões.
Naquela fronte
(naquela frente)
apenas um sorriso -
tão cândido, meigo, infante,
como aquele
parido pela mãe:
sua mulher.
Outra mãe – a guerra
parteja a Paz,
que vem – novíssima, nascendo
e chorando
lágrimas rubras
de um capacete gretado...
"Quando nasce o amor, em si,
renasce, pois, nas coisas
e as cores são cirandas..."
Osvaldo Fernandes
domingo, 25 de julho de 2010
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Houve um Tempo
Houve um tempo
em que as palavras me procuravam.
Deitavam nos meus ombros
investiam em meus olhos
e despenhavam junto às lágrimas.
Houve um tempo de lágrimas;
houve um tempo de sentidos;
houve-me, um tempo, escrito.
O tempo passou
e minhas lágrimas - antes salobras -
tornaram-se insípidas;
insápidas;
enxutas...
Das palavras, o silêncio,
e do Nada, um som
num mar revolto
desta vaga mansa
que um dia deixei-me vogar...
em que as palavras me procuravam.
Deitavam nos meus ombros
investiam em meus olhos
e despenhavam junto às lágrimas.
Houve um tempo de lágrimas;
houve um tempo de sentidos;
houve-me, um tempo, escrito.
O tempo passou
e minhas lágrimas - antes salobras -
tornaram-se insípidas;
insápidas;
enxutas...
Das palavras, o silêncio,
e do Nada, um som
num mar revolto
desta vaga mansa
que um dia deixei-me vogar...
terça-feira, 20 de julho de 2010
Cadafalso Celestial

A chuva canta a marcha nupcial
e pouco a pouco os pés vão-se, buscando
– e os braços, num anseio, tremulando –
o amor, no cadafalso celestial...
Um por um, nos seus passos, revelando
a certeza de se querer casal.
O Salvador, na cruz, tão divinal
A todo amor de um tempo, abençoando.
Entorno os olhos brilham, a luz parece
da moça ao rosto, deitar suas mãos;
premer no moço ao lado o coração;
soprar mil orações numa só prece.
Como passos marcados p’ra catarse
a seda arrasta a alvura, e se apresenta
rindo e chorando, o peito treme e esquenta
num desejo cabal de amancebar-se...
Quando no altar dos céus se aterram, unos
O diácono profere: “ – Eis os tais pombos!”
Nos mais cavos dos corações um bombo,
Revela: “– Os abençôo e os afortuno...
Da mais rica harmonia, o matrimônio!”
Lá fora a chuva aperta o canto e intenta
abençoá-los com lágrimas bentas
cantando junto núpcias com o harmônio.
Como poeta, acompanhar o rito
eu tento.... E ainda assim, fico vogando
ao céu, junto dos pombos emanando,
Mais amor do que venha ser escrito!
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Experiência
No silêncio do espelho,
entre a velhice e a juventude,
está minha alma
desenhada em amiúde.
entre a velhice e a juventude,
está minha alma
desenhada em amiúde.
Minha Natureza
Um dia eu sugeri ao Mundo permitir-me
E doá-lo um vislumbre de Pardais aos ares
Ainda que haja o medo quiçá de tu rires
Quando na Natureza do meu ser pousares...
Um dia eu permiti meu mundo para o Mundo:
As floras brejeirais. Os espinhos restantes
Ao infinito, os voos, sustidos de instantes
E a lenta alunissagem de pesar profundo...
Um dia arrependi-me de expressar a calma
deste universo interno: a ímpar natureza
dentre, a Mãe-Natureza e a de bilhares d’almas...
Foi quando, dentro em guerra, o Mundo eu questionei:
Que quero se lá fora afínica é a certeza
que a Natureza em mim, no mundo eu não verei?
E doá-lo um vislumbre de Pardais aos ares
Ainda que haja o medo quiçá de tu rires
Quando na Natureza do meu ser pousares...
Um dia eu permiti meu mundo para o Mundo:
As floras brejeirais. Os espinhos restantes
Ao infinito, os voos, sustidos de instantes
E a lenta alunissagem de pesar profundo...
Um dia arrependi-me de expressar a calma
deste universo interno: a ímpar natureza
dentre, a Mãe-Natureza e a de bilhares d’almas...
Foi quando, dentro em guerra, o Mundo eu questionei:
Que quero se lá fora afínica é a certeza
que a Natureza em mim, no mundo eu não verei?
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Pouso Leve
Pousar de leve a mão nas tuas mãos
– ligeiro escuro; ao sol olhos brilhando
e nas penumbras pálpebras sambando –
pousar de leve em seu, meu peito então...
Levantar vôo, o coração, na boca
– apoteose, e fez-se a escuridão
do esgar, da piscadela... – por que não
levantar vôo, o coração... da boca?...
Pulsantes, num dueto, vão tentando
– dois corpos em dois corpos se afogando –
mudos, desta volúpia, uma canção...
Um som sublime, um ritmo inconstante;
o acorde, um gozo, e lá do céu, lançantes,
pousando, os corações, leves, nas mãos...
– ligeiro escuro; ao sol olhos brilhando
e nas penumbras pálpebras sambando –
pousar de leve em seu, meu peito então...
Levantar vôo, o coração, na boca
– apoteose, e fez-se a escuridão
do esgar, da piscadela... – por que não
levantar vôo, o coração... da boca?...
Pulsantes, num dueto, vão tentando
– dois corpos em dois corpos se afogando –
mudos, desta volúpia, uma canção...
Um som sublime, um ritmo inconstante;
o acorde, um gozo, e lá do céu, lançantes,
pousando, os corações, leves, nas mãos...
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Desejo de Sono
Os dias vão passando
céleres e esguios...
As dores, todas elas, acompanham.
O tempo não completa mais o vazio.
Nem o vazio, completa o vazio.
As articulações apanham
do frio se agigantando...
A Morte parece estar logo à frente
e em cada Noite se me deita
fazendo companhia às ilusões –
há muito olvidadas,
mas que ultimamente
revivo-as, mais do que o instante;
mais do que a mente –
ocupando a vaga vazia
ao lado esquerdo do peito...
Mais uma noite, insone.
Doído, procuro a aventurança
mas os horizontes são cúpreos;
meus olhos depressivos os fitam
e através da janela
tentam tangê-los,
mas logo se fecham,
para chegada do sono.
Sem perceber mais dores ou decepções
estico meu braço ao lado.
A morte me esquenta; me consome
e finalmente durmo
com um último abraço de amor...
céleres e esguios...
As dores, todas elas, acompanham.
O tempo não completa mais o vazio.
Nem o vazio, completa o vazio.
As articulações apanham
do frio se agigantando...
A Morte parece estar logo à frente
e em cada Noite se me deita
fazendo companhia às ilusões –
há muito olvidadas,
mas que ultimamente
revivo-as, mais do que o instante;
mais do que a mente –
ocupando a vaga vazia
ao lado esquerdo do peito...
Mais uma noite, insone.
Doído, procuro a aventurança
mas os horizontes são cúpreos;
meus olhos depressivos os fitam
e através da janela
tentam tangê-los,
mas logo se fecham,
para chegada do sono.
Sem perceber mais dores ou decepções
estico meu braço ao lado.
A morte me esquenta; me consome
e finalmente durmo
com um último abraço de amor...
terça-feira, 29 de junho de 2010
Isabella
A fabulosa janela
Abre-se em sonhos azuis!
Cada noite houvera luz:
Voar, sonhara Isabella...
Sonhos de brinco e futuro:
Dança, balé, ser artista
Librar nas saladas-mistas
Voar por colos seguros!...
Na fabulosa janela
Uma noite houvera sombra:
Varonil vento na alfombra
Levara ao céu, Isabella
Como a seus sonhos, ao fim:
Asas paternas carmins...
Abre-se em sonhos azuis!
Cada noite houvera luz:
Voar, sonhara Isabella...
Sonhos de brinco e futuro:
Dança, balé, ser artista
Librar nas saladas-mistas
Voar por colos seguros!...
Na fabulosa janela
Uma noite houvera sombra:
Varonil vento na alfombra
Levara ao céu, Isabella
Como a seus sonhos, ao fim:
Asas paternas carmins...
Um Faminto
A Alberto de Oliveira
Na sarjeta migalhas e um faminto
Catando-as como das estrelas, brilhos
Há muito se perdeu, se fez extinto
No vácuo deste céu, como andarilho.
Urra a dantesca fome e esperançoso
como Tântalo, se prefere em morte
enquanto escolhe o sul, vai-se pro norte
a sorte, a essência, o destino animoso.
Rogam suas pernas comiseração
Já não andam. Parado, e em desalinho
na sarjeta esmaiado, eis o glutão...
Cada migalha afasta-o do caminho!
Assim faminto, vive o coração.
Assim meu coração vive magrinho...
Na sarjeta migalhas e um faminto
Catando-as como das estrelas, brilhos
Há muito se perdeu, se fez extinto
No vácuo deste céu, como andarilho.
Urra a dantesca fome e esperançoso
como Tântalo, se prefere em morte
enquanto escolhe o sul, vai-se pro norte
a sorte, a essência, o destino animoso.
Rogam suas pernas comiseração
Já não andam. Parado, e em desalinho
na sarjeta esmaiado, eis o glutão...
Cada migalha afasta-o do caminho!
Assim faminto, vive o coração.
Assim meu coração vive magrinho...
A Morte da Língua
Dos poemas, fugiram suas funções
E nada lhes restou, nem pleonasmo!
Duma abundância de aliterações
Os versos caminharam pro marasmo...
Fugiram, dos poemas, intenções!
Afugentadas de um acre sarcasmo!
Assassinaram versos – corações
Roubando da leitura o entusiasmo!
Não há mais poesia! Há nada, há luto
nem pra contar história o anacoluto
sobreviveu pra dar fluidez sintática.
Chorando do epitáfio do lirismo
leu-se, em gotas de orvalho, um eufemismo:
"Aqui descansa a língua da gramática."
E nada lhes restou, nem pleonasmo!
Duma abundância de aliterações
Os versos caminharam pro marasmo...
Fugiram, dos poemas, intenções!
Afugentadas de um acre sarcasmo!
Assassinaram versos – corações
Roubando da leitura o entusiasmo!
Não há mais poesia! Há nada, há luto
nem pra contar história o anacoluto
sobreviveu pra dar fluidez sintática.
Chorando do epitáfio do lirismo
leu-se, em gotas de orvalho, um eufemismo:
"Aqui descansa a língua da gramática."
terça-feira, 22 de junho de 2010
Que Então Possa Dizer
Talvez, quando eu morrer, tão condizente
este poema, quando lerdes, seja
com tudo que um poeta se deseja:
trazer de volta à vida a sua mente...
Que ainda morto, e falto, e ineloquente
inda possa dizer do que pragueja;
inda possa viver, pois, sem peleja
com que se achou viver quando presente...
Então me vou! Morrer! Ficar ausente
porque se a vida é mesmo este presente
que dizem “Deus nos deu”, já não apraz...
E deixo que conteis quando me for:
se ausente sempre estive para o amor
morto ou vivo estivesse, tanto faz!...
este poema, quando lerdes, seja
com tudo que um poeta se deseja:
trazer de volta à vida a sua mente...
Que ainda morto, e falto, e ineloquente
inda possa dizer do que pragueja;
inda possa viver, pois, sem peleja
com que se achou viver quando presente...
Então me vou! Morrer! Ficar ausente
porque se a vida é mesmo este presente
que dizem “Deus nos deu”, já não apraz...
E deixo que conteis quando me for:
se ausente sempre estive para o amor
morto ou vivo estivesse, tanto faz!...
sábado, 19 de junho de 2010
Tragam a Poesia de Volta
Eu rogo:
Tragam a Poesia de volta!
Recolham todas as minhas partes!
Tragam-se as Artes!
Peguem minhas pernas no Maracanã.
Onde as gramíneas as vivificaram
com saudades de Poesia.
Peguem meu Coração
que pulsa quente
na massa fria e polar.
Não deixem a Poesia morrer!
Não deixem o amor bafuntar!
Tragam também
meus punhos:
lá nos planaltos da tez;
lá onde nasceu o carinho;
lá, além de qualquer ninho;
tragam os que tocam,
os que criam,
os que falam!...
Peguem os punhos
que jamais socaram a Poesia.
Tragam a Poesia de volta!
Recolham as artes!
Façam vivas as minhas partes!
Tragam meus olhos
que planam por entre os vãos;
que míopes, ainda são sãos;
que mortos, ainda verão!...
Tragam meus ouvidos
e façam-se ouvirem os feridos;
amigos, verdade, saudade;
façam-se ouvirem com vontade
os sons jamais percebidos.
Tragam a Poesia de volta!
Tragam-me a vida de volta!
Tragam a Poesia de volta!
Recolham todas as minhas partes!
Tragam-se as Artes!
Peguem minhas pernas no Maracanã.
Onde as gramíneas as vivificaram
com saudades de Poesia.
Peguem meu Coração
que pulsa quente
na massa fria e polar.
Não deixem a Poesia morrer!
Não deixem o amor bafuntar!
Tragam também
meus punhos:
lá nos planaltos da tez;
lá onde nasceu o carinho;
lá, além de qualquer ninho;
tragam os que tocam,
os que criam,
os que falam!...
Peguem os punhos
que jamais socaram a Poesia.
Tragam a Poesia de volta!
Recolham as artes!
Façam vivas as minhas partes!
Tragam meus olhos
que planam por entre os vãos;
que míopes, ainda são sãos;
que mortos, ainda verão!...
Tragam meus ouvidos
e façam-se ouvirem os feridos;
amigos, verdade, saudade;
façam-se ouvirem com vontade
os sons jamais percebidos.
Tragam a Poesia de volta!
Tragam-me a vida de volta!
Sonífero
O sono visita.
Apaga-me a luz.
No meio do escuro,
estrela cadente
Transpassa, corisca,
e canta; e seduz.
Num risco me vou!
De encontro com nada,
quer vou cavalgada,
quer vôo, revoada
eu vou! E eu vou!
Vou ter com a estrela!
Cadente por tê-la
eu vou! E eu vou!
No meio do cinza,
Eis álgicas cruzes:
- Nós somos os sonhos
daquele são sono
que tu mesmo induzes!
No meio do claro:
- Eu vou, eu tô indo;
eu vou, sou o sono
sou seu grande sonho
viajando em luzes
tal como um menino!...
Apaga-me a luz.
No meio do escuro,
estrela cadente
Transpassa, corisca,
e canta; e seduz.
Num risco me vou!
De encontro com nada,
quer vou cavalgada,
quer vôo, revoada
eu vou! E eu vou!
Vou ter com a estrela!
Cadente por tê-la
eu vou! E eu vou!
No meio do cinza,
Eis álgicas cruzes:
- Nós somos os sonhos
daquele são sono
que tu mesmo induzes!
No meio do claro:
- Eu vou, eu tô indo;
eu vou, sou o sono
sou seu grande sonho
viajando em luzes
tal como um menino!...
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Mar de Lágrima
Areias afundam
um espírito moribundo:
eu, enferrujado
e vagamundo.
Em cada passo, uma força imane.
O sal sobrepuja;
a brisa oxida.
Defronte, o mar.
E do meu olhar, mesmo poeirento,
despenha-se a lágrima
mais salobra que já tive.
um espírito moribundo:
eu, enferrujado
e vagamundo.
Em cada passo, uma força imane.
O sal sobrepuja;
a brisa oxida.
Defronte, o mar.
E do meu olhar, mesmo poeirento,
despenha-se a lágrima
mais salobra que já tive.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Flor Amada
Espinhos rutilantes findam nortes
no caule duma Flor
amada e bel.
Fagulhas dela soltam-se confortes
não há mais dor ou cor
nem doce ou fel.
Ó Flor Amada, desejei-me a morte!
Quando à fona de amor
deliu-me o céu.
no caule duma Flor
amada e bel.
Fagulhas dela soltam-se confortes
não há mais dor ou cor
nem doce ou fel.
Ó Flor Amada, desejei-me a morte!
Quando à fona de amor
deliu-me o céu.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
segunda-feira, 17 de maio de 2010
O Ser Que Um Dia Fui
O ser que um dia eu fui vagava nos ladrilhos
do fracasso, este chão calcado em pensamento.
Ora me questionava: “Que impele tormentos?”
Olvidaria, entanto, em preces de andarilho...
Passando pelo mundo alheio ao sentimento
deixando só o lamento azar o meu desbrilho...
Até que um dia pai, que em outro já foi filho,
fui, na forte impressão dum sublime momento!...
E enfim estar calcando o chão nunca sentido –
A Terra como é – no tempo prometido:
A paz e a aventurança – o Agora, o início e o fim.
Andei de encontro a vida e a acomodei nos braços
chorando, e ao vir o sol eu vi que neste laço
a sombra do que fui não mais viver de mim...
do fracasso, este chão calcado em pensamento.
Ora me questionava: “Que impele tormentos?”
Olvidaria, entanto, em preces de andarilho...
Passando pelo mundo alheio ao sentimento
deixando só o lamento azar o meu desbrilho...
Até que um dia pai, que em outro já foi filho,
fui, na forte impressão dum sublime momento!...
E enfim estar calcando o chão nunca sentido –
A Terra como é – no tempo prometido:
A paz e a aventurança – o Agora, o início e o fim.
Andei de encontro a vida e a acomodei nos braços
chorando, e ao vir o sol eu vi que neste laço
a sombra do que fui não mais viver de mim...
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Reencarnado
Uma vez quando morri
almejei uma nova vida.
(O céu era utopia!)
Cheguei a barganhá-la
num camelô espiritual;
num leilão de arrependimentos.
Trabalhei para o diabo
amassando pães,
e contratando almas.
Comprei minha reencarnação.
Hoje, entre os homens
comendo o Pão
e vivendo com as almas
tudo que desejo
– enquanto vivo –
é na boca, novamente,
aquele gosto doce de enxofre...
almejei uma nova vida.
(O céu era utopia!)
Cheguei a barganhá-la
num camelô espiritual;
num leilão de arrependimentos.
Trabalhei para o diabo
amassando pães,
e contratando almas.
Comprei minha reencarnação.
Hoje, entre os homens
comendo o Pão
e vivendo com as almas
tudo que desejo
– enquanto vivo –
é na boca, novamente,
aquele gosto doce de enxofre...
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Pontualidade do Tempo
-----------------------------------------------
"O passado é ponto.
O futuro reticências,
E o presente, dois pontos..."
(Osvaldo Fernandes)
-----------------------------------------------
Se o passado é findo, é ponto
e o futuro, reticências
eu, no Agora, em sã consciência
verso presente - em dois-pontos!...
Mas contigo, à tua presença
perco o tempo, me desmonto
e no desejo defronto
tu versada em reticências!
Tu composta – poesia!
Meu contínuo espaço-tempo
em dois pontos, toda escrita!
Tu futuro. Tu dia-a-dia!
Meu tempo verbal sem tempo:
tu em mim, tu infinita!
A Fantasista
Puseste a fantasia da tristeza
(porque a felicidade, sabes(!), és-te!)
Debruns para ludibriar puseste
mas não ludibriaste com destreza
pois um riso sublime e oculto vestes,
brilhando à frente a fronte em escureza,
bem como lantejoulas da beleza
te desfantasiando as sobrevestes!
Vieste amuada te querendo triste
mas nunca fostes, nem em solidão,
nem quando o desgosto te foi folião!
Vieste em fantasia; um rico chiste!...
Porém, num riso nu, o Coração
enfeitado, de tristeza, despiste!
(porque a felicidade, sabes(!), és-te!)
Debruns para ludibriar puseste
mas não ludibriaste com destreza
pois um riso sublime e oculto vestes,
brilhando à frente a fronte em escureza,
bem como lantejoulas da beleza
te desfantasiando as sobrevestes!
Vieste amuada te querendo triste
mas nunca fostes, nem em solidão,
nem quando o desgosto te foi folião!
Vieste em fantasia; um rico chiste!...
Porém, num riso nu, o Coração
enfeitado, de tristeza, despiste!
As Emoções
-----------------------------------------------
“Se todo às emoções terás surgido
e se, Poeta, versas do vazio
ainda assim, sou mais que as emoções
ainda assim és nada em teus escritos...”
(Osvaldo Fernandes)
-----------------------------------------------
Como tudo que existe nasce e morre,
pleitear às emoções o direito de crescimento e reprodução
faz parte, unicamente, de ti.
Aliás, contigo, tudo podes!
Elas não te comandam, não te machucam ou bajulam.
Elas não te ferem.
As emoções
apenas emoções são.
Tu, não as és!
Tu és o espaço no qual as emoções nascem.
Tu és o recipiente que as agregam, e as transformam e as surgem.
Tu és o que transfaz o nada em tudo.
Tu és o peito, a essência, o cerne e a consciência.
Maior que pensas, tu és...
e maior que sentes;
e muitíssimo maior
que és.
Tu és o espaço no qual as emoções nascem.
Tu és o recipiente que as agregam, e as transformam e as surgem.
Tu és o que transfaz o nada em tudo.
Tu és o peito, a essência, o cerne e a consciência.
Maior que pensas, tu és...
e maior que sentes;
e muitíssimo maior
que és.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
O Mito
I-
Perguntaste e desejaste, quem sou,
ditado, e nos versos dou-me empenhado:
Um forte! O val da fraqueza do homem
que na mitologia d'arte manda!
Um corpo adiamantado de cesuras
que fulge e que ao mesmo instante penetra
em toda sânie bolhada no Olimpo:
um penedo de carne semideus!
II-
A divindade cárcere do arbítrio!
O rorejante glóbulo vermelho
da ponta das três puas, dos três dentes
pungente e vil do justo Poseidon!
III-
Quem sou? o ar! Já poluído e inerte
que só nos dentes venenosos tem-se
zéfiro! vindo do ofídico escalpo
(este uivo sibilante) da Medusa!
Eu hei de sê-lo, e hei no mito está-lo!
Pois quer onipresente estar meu nume
como estivesse na Grécia antiquada
como, em Gaia, total viração fosse(!),
como inspirando-me pedra virasses!
IV-
Perguntaste quem sou!... Meia blasfêmia!
O que te empedernir, será quem sou!
Pois na mão tenho Zeus, e então te juro
pelo trovão, pelas gris nuvens súcias
e todo o poderio dos Titãs
que serei no teu pedregoso cerne
tão violenta e irascivelmente
uma escritura rubra de mil versos
que por blasfêmia, em sanha, te esculpi!
Perguntaste e desejaste, quem sou,
ditado, e nos versos dou-me empenhado:
Um forte! O val da fraqueza do homem
que na mitologia d'arte manda!
Um corpo adiamantado de cesuras
que fulge e que ao mesmo instante penetra
em toda sânie bolhada no Olimpo:
um penedo de carne semideus!
II-
A divindade cárcere do arbítrio!
O rorejante glóbulo vermelho
da ponta das três puas, dos três dentes
pungente e vil do justo Poseidon!
III-
Quem sou? o ar! Já poluído e inerte
que só nos dentes venenosos tem-se
zéfiro! vindo do ofídico escalpo
(este uivo sibilante) da Medusa!
Eu hei de sê-lo, e hei no mito está-lo!
Pois quer onipresente estar meu nume
como estivesse na Grécia antiquada
como, em Gaia, total viração fosse(!),
como inspirando-me pedra virasses!
IV-
Perguntaste quem sou!... Meia blasfêmia!
O que te empedernir, será quem sou!
Pois na mão tenho Zeus, e então te juro
pelo trovão, pelas gris nuvens súcias
e todo o poderio dos Titãs
que serei no teu pedregoso cerne
tão violenta e irascivelmente
uma escritura rubra de mil versos
que por blasfêmia, em sanha, te esculpi!
Mistério de Ser
Já fui Terra desbravada.
Cruzada de mil Colombos
Quadra pirata hasteada
Riqueza branca roubada
Segredos livres – ribombos!
Já fui desmatada selva.
Cachimbo de mamelucos.
Fui brumas em ar, charutos
negros dos verdes das relvas.
Segredos tristes – de luto!
Já fui oásis – Deserto –
racionado em dromedários
Fui corcova, lombos vários
Fui mesmo oásis deserto.
Segredos tão solitários!
Já fui o Centro da Terra.
Ao meu umbigo, devoto
Fui Pangéia, terremoto
Fui-me natureza em guerra
Nos segredos que denoto!
Hoje sou só pó, só chão
charco, lama, morte e fedo
esculpindo passos tredos
defuntado no meão
de tudo que fui: segredos...
Cruzada de mil Colombos
Quadra pirata hasteada
Riqueza branca roubada
Segredos livres – ribombos!
Já fui desmatada selva.
Cachimbo de mamelucos.
Fui brumas em ar, charutos
negros dos verdes das relvas.
Segredos tristes – de luto!
Já fui oásis – Deserto –
racionado em dromedários
Fui corcova, lombos vários
Fui mesmo oásis deserto.
Segredos tão solitários!
Já fui o Centro da Terra.
Ao meu umbigo, devoto
Fui Pangéia, terremoto
Fui-me natureza em guerra
Nos segredos que denoto!
Hoje sou só pó, só chão
charco, lama, morte e fedo
esculpindo passos tredos
defuntado no meão
de tudo que fui: segredos...
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Vocabulário
O meu vocabulário é Porcaria
alguns leitores – muitos deles laxos
(Não posso esta palavra, mas relaxo
pois preferem ‘preguiça’ em poesia
talvez porque na própria eles se acham!)
– não têm um dicionário à serventia
e nem sequer o leem, não há valia
as palavras velhuscas que eu encaixo...
Mal sabem que antiquado é tão mais novo
do que estes fabordões feitos do povo;
que até o mesmo léxico malogra...
Mas minhas porcarias, levo adiante
a fim de reviver relíquias dantes
que mortas pelo tempo aqui se logra!
alguns leitores – muitos deles laxos
(Não posso esta palavra, mas relaxo
pois preferem ‘preguiça’ em poesia
talvez porque na própria eles se acham!)
– não têm um dicionário à serventia
e nem sequer o leem, não há valia
as palavras velhuscas que eu encaixo...
Mal sabem que antiquado é tão mais novo
do que estes fabordões feitos do povo;
que até o mesmo léxico malogra...
Mas minhas porcarias, levo adiante
a fim de reviver relíquias dantes
que mortas pelo tempo aqui se logra!
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Preguiça
Machuca o cerne este animal dantesco:
um réptil quelônio que te habitas!
Um retentor de teu ideal fresco:
a escuridão; o estorvo – um parasita!
Segura os passos, põe-te medo e foge
pra mais profundo em ti, e lá se oculta.
Tu erras, quando o fazes metagoge
nos carmes que o compões, eis que resulta
O altíssono poeta modernista
de escritos que parecem de Pangeia
proferindo de si prosopopeias!
És tu que lhe dás vida! És tu o artista
carcomido por dentro. És tu que aquentas
as garras desta preguiça agourenta!
um réptil quelônio que te habitas!
Um retentor de teu ideal fresco:
a escuridão; o estorvo – um parasita!
Segura os passos, põe-te medo e foge
pra mais profundo em ti, e lá se oculta.
Tu erras, quando o fazes metagoge
nos carmes que o compões, eis que resulta
O altíssono poeta modernista
de escritos que parecem de Pangeia
proferindo de si prosopopeias!
És tu que lhe dás vida! És tu o artista
carcomido por dentro. És tu que aquentas
as garras desta preguiça agourenta!
terça-feira, 30 de março de 2010
Realidade Utópica
Ó sonho jamais visto! Se ao lado
orvalhos dos jardins do meu vizinho
como espelhos de um desejo esperado
refletisses o teu brando caminho!
Sonho espargido, pó de poesia,
és todo meu futuro carcomido!
Se não de languidez por ti puído
jamais cego e estacado então seria!
Por que em palavras, ó Sonho, timbrá-lo
na régia eternidade – eu te consigo,
como consigo o sol sendo-me amigo
mas não consigo enfim, sê-lo, tocá-lo!?...
Fosse no orvalho e ensejo, tu surgido
entre os jardins e toda esta avifauna
te encontraria fora de minh’alma
te perderia enfim, sem ter perdido!
________________________________________________
Engraçado. Eu fiz este poema para um vizinho.
Na verdade foi o complemento de um texto...
...onde falo sobre o vizinho, que nada mais é que meu sonho...
...como se meu sonho fosse um vizinho que nunca conheci.
Ele esta lá. Eu encho os olhos em seu jardim...
...mas não vicei com ele, ainda.
Talvez precisasse desligar-me dele para, enfim...
...tê-lo na realdade.
O texto encontra-se em meu outro blog.
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orvalhos dos jardins do meu vizinho
como espelhos de um desejo esperado
refletisses o teu brando caminho!
Sonho espargido, pó de poesia,
és todo meu futuro carcomido!
Se não de languidez por ti puído
jamais cego e estacado então seria!
Por que em palavras, ó Sonho, timbrá-lo
na régia eternidade – eu te consigo,
como consigo o sol sendo-me amigo
mas não consigo enfim, sê-lo, tocá-lo!?...
Fosse no orvalho e ensejo, tu surgido
entre os jardins e toda esta avifauna
te encontraria fora de minh’alma
te perderia enfim, sem ter perdido!
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Engraçado. Eu fiz este poema para um vizinho.
Na verdade foi o complemento de um texto...
...onde falo sobre o vizinho, que nada mais é que meu sonho...
...como se meu sonho fosse um vizinho que nunca conheci.
Ele esta lá. Eu encho os olhos em seu jardim...
...mas não vicei com ele, ainda.
Talvez precisasse desligar-me dele para, enfim...
...tê-lo na realdade.
O texto encontra-se em meu outro blog.
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domingo, 28 de março de 2010
Ao Nugget
Que me importa a vida
se não te puder,
Nugget,
mordiscar!
Se não te puder
liquefazer
na salivação que se faz infinda;
na salpicação que na língua
borbulham volúpias do sabor!
Se não te puder
que me importará!
Ó Nugget! Vinde à taberna da arcada!
Vinde! Derramai vossa gordura
em nossa fádica e corrupta boca!
Vinde! E tragais junto
em vossa mordida,
a nossa vida,
salivando...
se não te puder,
Nugget,
mordiscar!
Se não te puder
liquefazer
na salivação que se faz infinda;
na salpicação que na língua
borbulham volúpias do sabor!
Se não te puder
que me importará!
Ó Nugget! Vinde à taberna da arcada!
Vinde! Derramai vossa gordura
em nossa fádica e corrupta boca!
Vinde! E tragais junto
em vossa mordida,
a nossa vida,
salivando...
Vedes no Verde
"Ora vereis as belas musas - onde:"
procuradas nos galhos mais altivos;
sentadas e esperando-vos mais vivos,
em voo e pouso suave pelas frondes...
Das musas, vós tereis aquisitivos:
Beijai-as! – As mãos, nas copagens, ponde!
Tirareis os verdes véus que as esconde,
trareis convosco o belo completivo!
"Ora vereis as musas belas, certas"
alando as almas a terdes com o cume,
avante às galhas, verticais andanças!
Finalmente tereis musas corretas
Sim! Por terdes no verde todo alume
que não vedes, senão nas altas franças!
procuradas nos galhos mais altivos;
sentadas e esperando-vos mais vivos,
em voo e pouso suave pelas frondes...
Das musas, vós tereis aquisitivos:
Beijai-as! – As mãos, nas copagens, ponde!
Tirareis os verdes véus que as esconde,
trareis convosco o belo completivo!
"Ora vereis as musas belas, certas"
alando as almas a terdes com o cume,
avante às galhas, verticais andanças!
Finalmente tereis musas corretas
Sim! Por terdes no verde todo alume
que não vedes, senão nas altas franças!
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