"Quando nasce o amor, em si,
renasce, pois, nas coisas
e as cores são cirandas..."
Osvaldo Fernandes
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Um Céu Que Não Foi Céu
Olhando o céu, um astro-rei me irrompe:
Que céu poder-se-ia tais cometas
queimosos, tão vis, como baionetas
que a tudo punge; que a vida interrompe?
- Se podem! Como infames bombardetas
lançadas fortemente nos portais
das feridas; dos mais medonhos ais
trasmutando humanos em estatuetas!...
Eu questionando, já petrificado
quebrei, como num céu, fragmentado
de um coração, sangrando irresoluto!...
Olhando o céu... eu costumava vê-la!
Mas se quebrou, despenhou suas estrelas
n'alvorada de azuis cacos fajutos!
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Orangeburg
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Universo Incomum
Tempo parado ante um novo Universo:
cada minuto passa de hora em hora
É como estou - vogando tão disperso,
tão pando, como o tempo está agora...
Um novo céu, de feiúme absterso:
Onde as estrelas do teu rosto, coram
E os teus buracos negros são reversos
Expelindo teus brilhos como auroras!
Teus olhos: vermelhíssimo arrebol!
Tua tez compõe a quentura do sol
- Ó Altíssimo Universo incomum!
E eu numa Lua longínqua, sentado
Pensei em ser teu astro - um namorado! -
mas brilhando em teu céu, fui só mais um!...
Duas Vidas
Eu vivo em mim, de fato, duas vidas
Uma, de sonhos, lauta e esperançosa
que se tornam poemas lindos, prosas
N’abstração e em letras, concebidas...
Outra de realidade pustulosa
que cria estrofes vis e fementidas
gerando poesia genocida
como fosse inferno em apoteose!
Eu quero é viver na desesperança
e fazer com o Agora uma aliança
exterminando o que, de sonho, existe!
Eu não vou esperar nenhuma sorte!
Pois morrerei, antes que venha a morte
Da esperança que última se insiste!
Efêmero
Tempo que passa o tempo e nunca passa
realmente, se alquebrado no Agora...
Tempos que contam horas tão já escassas
e engolem toda cor que houvera outrora...
Tempo sem tempo: velho ou tão menino
percorrendo os playgrounds da memória.
Tempo que esvai, que é como desatino
desvairado em conjecturas de glórias...
Tempo que pinta o céu todos os dias
do azul dulcíssimo, de branco ou gris
ou preto – à negritude do infeliz...
No sol a despontar no dia-a-dia:
O efêmero, se reflete, fulgente;
amareleza em manhãs do presente...
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Sr. Certeza
Como juiz que adocica tiranos
com sua uvada velhusca, inda úvida:
levemente umedece toda dúvida
que emudecia a vida em longos anos!
Bate o martelo, e o vinho de sua mesa
Parece se liquefazer nos crânios
e explode ao ar: se fulgem novos planos
como jamais fulgiram na incerteza!
E a ré – eis a Dúvida - em frente ao júri
diz-se inocente enquanto assassinava
porventura uma ideia incerta algures...
E os cidadãos - os jurados - de avença,
(os mesmos que do vinho degustavam)
sem dúvida souberam sua sentença!...
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
A Tudo Tenho
Onde o ter? Nunca terei!
Se não posso e em meu assomo
Não querer ter, quererei!
Querei ter? Onde o ter? Como?
Entre arranha-céus e escombros;
Ou a escuridão, cegueta,
e à luz, de mil cometas
P’ra que ter? Dou de-me ombros!
Querei nada! A tudo tenho!
Vedes florestas – arbustos?
Vejo mãe-verde e seus bustos
nus e a mim, menos ferrenhos!
Tudo tenho! Não sabeis?
Rosas em campos no céu
Prosas com belas ao léu
no firmamento: olhos-reis!
Venham, venham os trovões!
Pondo suas tubas em punho
Algazar mil caramunhos
que não ouvem suas canções!
Os passarinhos cantantes
Que no cerne, inda que mudos
são de tudo: tartamudos,
pagodeiros; consonantes!
E o Pardal, tão belo deus!
Tão agreste e tão de casa
tão de todos, mas tão meu!
Tão mais meu que os tenho as asas!
Tudo tenho! Meus ouvidos
São trementes alaúdes
retornando em amiúde
iracundos carcomidos!
Eu não desejo o amor!
Nem ser tão bem venturoso
Nem ser vão – vil! – desditoso.
Vede só! Onde há tal dor!?
E bem inda que pudesse
Ainda desejaria
Todo estio das poesias
que do quente-azul proviesse
Como flores em acenos
pululando em mi’a verve.
Tudo tenho! E tudo serve
tudo é tanto mais ou menos...
Que em companhia aos meus rastros
de estardes, sem céu, na Terra
possais acabar com a guerra
de me invejardes nos Astros!
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Estar Fora de Mim
Estar fora de mim, e ainda estar
por dentro, corroído e desalmado
ainda é estar por fora anuviado
e dentro certo que há o que se amar...
Estar fora de mim! Ah! Até voltar
e reparar os cacos já quebrados
dum espírito, mil vezes colado
é o caminho que eu nunca quis chegar!....
Estar fora de mim é tão melhor
mas há que se passar, pois o pior
à espreita sorve d’olhos mi’a candura...
Estar fora de mim como andarilho
não dá, se o coração não tem mais brilho
e dentro clama, cego, desventuras!
domingo, 20 de dezembro de 2009
À Musa de Ouro
Tive na vida inteira, a dois, remorsos:
Sonhos de céu, quebrando-se três vezes
em espaços vazios, descorteses
que se foram p’ro vácuo, sem ser Nosso...
Tive, pois, não mais tenho esta descalma!
Pois fizeste de um Nosso, ser um Quero
Tendo-me assim, em ações que enumero
nos dedos infinitos de minh’alma!...
Contigo, a vida é tão aurifulgente!
Como são teus cabelos, quando os vejo
esvoaçando sonhos benfazejos
que borbulham anímicos e crentes!
Sinto que a ti minh’alma se transmigra
e faz do teus sorrisos, domicílio,
e de tu’alma, o mais honroso exílio,
como em pátria dum Sonho que remigra!
E vou mostrar-te, em coração poeta
a lídima beleza deste mundo
e todo o amor, que de mim, oriundo
faz n’alma engendrar quimeras completas!
E vou mostrar-te, a ti, do que és feita!
No espelho dos meus versos, quando leres:
Do reflexo, o mais divino entre os seres,
qual prece que Deus concebeu, perfeita!
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Trovões Internos
Lá fora ouço trovões mal-humorados
trazendo o tormento p'ra dentro à porta
desta alma viva que se sente morta
num limbo de porvir desesperado...
Lá fora, ouço também, vociferado
Um céu de nuvens gris zanzando tortas!
Que chorando torrencialmente aporta
na realdade de um devir quebrado!
Cá dentro o céu se doa para o inferno
a fim de lhe inundar de poesia;
bruxuleando, em dueto, fogaréus!
Cá dentro, é pacatez, dilúvio terno;
Trovões suaves cantam cotovias
E torvelins de sonhos fazem céu!
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Ultimogênito
Finda-se aqui o sentimento tristonho
De um sonhador, que já morto de fome
fez da esperança seu único nome
por achar comestível qualquer sonho!
Finda-se, pois, aqui, defronte a morte
Aquilo qual achava, em si, seu sismo;
E engrenagem da vida - seu lirismo:
tremor que deitaria contrafortes!
Findam-se aqui - em versos - os meus versos
E findam-se felizes, ternamente
Porque, de sonhos cheios, toda mente
Carece sintonia do Universo!
Finda-se aqui, meu poeta - o eu-lírico!
Com a lança duma falta de ensejo
fincada no arcabouço do desejo
fingido, inverossímil, tolo e empírico!...
Morro-me à poesia, nasço homem
e deixo o último verso pra saudade;
minh’alma voga inteira na vontade
de não ter mais quimeras que me domem!
Morro pra tudo! E renasço ordinário
Divorciado do lirismo culto.
Da realdade - a me tornar avulto -
versejo à boca, e não dum dicionário!...
Morro! Meu sentir não se desespera
Pois sei, não serve ao mundo em que eu existo
e sei saber, por isso é que desisto
e abraço forte a vida que me espera!...
Morri! Nem sinto-lhe a falta, poeta
pois caminhei de encontro ao que queria
deixei meu sonho, à folha, em revelia;
e minh’alma, de vãs quimeras, quieta!
Poeta! Pegue o poema, autografe-o
postumamente! E solte-se de mim!
Que o ultimogênito poema, enfim
findou, publicado em seu epitáfio!...
Morto, Poeta, eu sei já o que fazer
- não mais em versos, ou sonhos d’outrora -
Vou conjugar os verbos cá de fora
sendo o sujeito que não pude ser!
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Verbalizando a Vida
Cada um de nós,
leva o sol nos pés.
Aos siderais,
extraordinários,
de andejo:
calquem ao chão seus verbos;
tornem pandos seus quadrados!
Há muito espaço na Terra!
Há muita guerra,
e sarjetas frias!
Infinito é o espaço!
Infinita é sua ação!
Infinitos são!
[passos...
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Revelação
Ah! Como amar a poesia, o carme
que não sou eu! Que não aceito a dor
de versos maculados dum pavor?
Como, de fato, posso revelar-me
poeta, de lirismo ocre, amador?
E como amar os versos que eu não fiz?
Ou se fiz, não se parecem meu verso?
Como, dentro de um espírito disperso
e imerso na poesia que eu não quis,
poder fazer-me parte do Universo?
Serei somente mais um ser que, em parte
Sente e escreve, reprime e cria... NADA?
Ou tudo que se cria é uma nonada
que se engendra do vazio da arte
e se desfaz, na folha, estatelada?
O que eu quero mesmo é coisa nenhuma!
Ser-me flocos fátuos, brilhando todo!...
com sentimento, diluído em lodo,
cativo a cavalgar por entre as brumas;
câncer oculto, tufo em linfonodos!...
Quem sabe um andarilho da poesia,
daqueles que com uma vil caneta,
aperta a tinta, faz chover cometas
no céu vil, tumular do dia-a-dia
fazendo a alma queimar todo planeta!...
Quem sabe, um nada bem cheio de tudo!
Um doudo, amalucado, o desvario!
Que cinge em verso quente e verso frio;
Que na ponta do lápis, assim, mudo,
muda o nada pro tudo, do vazio!
Quem sabe, seja só linha fadada,
A percorrer os olhos dos leitores,
E rutilar imagens d’alma, amores,
Pintadas no papel, bruxuleadas
em versos que aparentam-se indolores!?
Quem sabe? Eu não sei! Só quero estar,
nas mensagens que fiz, de modo errado,
vislumbrando um poeta mal formado
que não existe em mim, mas que se há
no carme, em versos, todo entrelinhado!
Ah! No dia que amar poesia,
o carme me dirá do que não li!
Assim como os pedaços que verti
na folha, esquartejados, saberiam:
no ponto final só eu quem morri!
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
O Vôo Infindo da Borboleta

Ah! Borboletinha!
Que te estás à toa?
Solta-te, revoa!
Rufla tuas asinhas!
Canta-nos! Reboa!
Paira ao fementido
te eleva ao mentido!
Faze o mundo cheio
de teu colorido -
luz de veraneio!...
Colorir, vem... ousa!
Pousa o céu na vida
nas nuvens, repousa!
Solta arremetida
sorrisos à chousa!
Voa até o inferno!
Faze dele nada
Torna-o livre, terno
solta avermelhada
cores d’alma alada
no adejar superno!
Voa até o céu!
E lhe espalha o rosa!
Choverá o laurel
da alvorada prosa
na noite revel
brilhando formosa!
Ah! Mi’a borboleta!
Veja! Quão cansaço!
Pousa-te em meu braço
Toca a cançoneta
Voa em pirueta!
E estremece o espaço!
Esquece quem tinhas!
Voa! Sem final!
Rufla tuas asinhas!
Ah! Borboletinha!
Vem para o Pardal!
Que te estás à toa?
Solta-te, revoa!
Rufla tuas asinhas!
Canta-nos! Reboa!
Paira ao fementido
te eleva ao mentido!
Faze o mundo cheio
de teu colorido -
luz de veraneio!...
Colorir, vem... ousa!
Pousa o céu na vida
nas nuvens, repousa!
Solta arremetida
sorrisos à chousa!
Voa até o inferno!
Faze dele nada
Torna-o livre, terno
solta avermelhada
cores d’alma alada
no adejar superno!
Voa até o céu!
E lhe espalha o rosa!
Choverá o laurel
da alvorada prosa
na noite revel
brilhando formosa!
Ah! Mi’a borboleta!
Veja! Quão cansaço!
Pousa-te em meu braço
Toca a cançoneta
Voa em pirueta!
E estremece o espaço!
Esquece quem tinhas!
Voa! Sem final!
Rufla tuas asinhas!
Ah! Borboletinha!
Vem para o Pardal!
A Busca Infinda do Pardal

Apruma as asas e voa!
Voa alto! Há no alvo!
Solta o bando dos papalvos!
Qu’isto torna pando. Ecoa,
Lá do céu, - canta e revoa! -
Faze-o, de vis cores, calvo!
Toma o cinza! Toca a bruma!
Voa avante; te plumeja!
Não te esquece! Voa e alveja
Toma todas e nenhuma
Luz azul à tua pluma!
Libra além do altimurado!
Traze o infindo às tuas 'bicas'!
Quebra o sol: o sorve; o pica!
Qu’este torna bem curvado,
Aos teus voos; paparica!
Ó Pardal que esvoeja:
Traze o céu e volve o lume!
Voa aquém de qual negrume!
Canta acima, purpureja,
Tua alma, vai-te... almeja,
Libertado ao teu tapume!
Risca o céu o triste; calibre!
Colore toda descalma
E vem cá ousar-te a alma:
Em fazer qu'amor se libre;
Em pousar-te à vida a calma;
Ó Pardal, vai! Voa livre!...
Solta o bando dos papalvos!
Qu’isto torna pando. Ecoa,
Lá do céu, - canta e revoa! -
Faze-o, de vis cores, calvo!
Toma o cinza! Toca a bruma!
Voa avante; te plumeja!
Não te esquece! Voa e alveja
Toma todas e nenhuma
Luz azul à tua pluma!
Libra além do altimurado!
Traze o infindo às tuas 'bicas'!
Quebra o sol: o sorve; o pica!
Qu’este torna bem curvado,
Aos teus voos; paparica!
Ó Pardal que esvoeja:
Traze o céu e volve o lume!
Voa aquém de qual negrume!
Canta acima, purpureja,
Tua alma, vai-te... almeja,
Libertado ao teu tapume!
Risca o céu o triste; calibre!
Colore toda descalma
E vem cá ousar-te a alma:
Em fazer qu'amor se libre;
Em pousar-te à vida a calma;
Ó Pardal, vai! Voa livre!...
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Relógio
Quero caminhar avante.
Detonar a inércia!
Acreditar no certo que se imagina.
Ter a certeza
que o não que me abomina
não faz do certo
menos imaginário.
Abominar é parar.
Acreditar é andar.
No fim, os fins se danam!
E o meio que vale!...
Que faz tudo... real!
Não me deixarei
ser relógio
hermeticamente rotundo
e fechado.
Num tic-tac
que tem sempre o mesmo som!
Que o ponteiro volte ao lugar de início.
Não quero minha vida relógio.
Não quero só tic-tac.
Eu tenho todas as onomatopéias do mundo!
Não quero, pois, este inferno:
A repetição
repetitiva
de tudo que se repete
repetidamente
como um tiquetaquear na parede!
A minha vida, até se pode relógio
mas de números infinitos
Como meus dias:
Com o mesmo céu.
A mesma natureza.
Posto que
em cada dia
um mundo novo
e infinito!
Eu quero o 25.
O 35.
O 1.006.
Eu quero os enes.
Os zilhões.
Cada dia algo novo.
Cada hora algo diferente.
Cada segundo... algo.
De verdade!
Quero a criação!
E não a repetição;
transformação.
Quero o toc-toc
de pés oníricos
a caminhar no chão do acaso.
Quero o descaso
de estar, diferentemente, errado!
Quero a novidade de tudo!
Dormir sem horas e acordar sem tempo!
Dormir cem horas
e ainda acordar no tempo!
Sonhar.. cem horas!
Mil! Milhões
na realidade do novo!
E realizar-me todas as horas
infindavelmente
como fosse um sonho!
domingo, 29 de novembro de 2009
Batida
Mais cartas, não desejo, em meu baralho
As três já formam fácil minha trinca
Que no meu coração se sabe e brinca...
O Ás, a Dama, e o Valete criançalho...
Mais cartas, não as quero, sou grisalho!
Como nuvem que pelo céu se vinca
E que formado o trunfo, não me finca
Pois desenredo, solto-me; tresmalho!
O Ás é a máxima da vida inteira:
É geratriz! Poesia, cancioneira,
De toda minha vida, é o meu chão!
A Dama é o caminho que agora sigo;
O Valete é o meu melhor amigo:
Perfeitas batidas do coração!
sábado, 28 de novembro de 2009
Deixando
Assim eu vi, deixando-o só.
Quem diabos deixaria?
Talvez ele próprio
no ópio entorpecente
e estacante?
Pudesse então que femençasse
aquele insight inexistente!
Pudesse enfim, que o inebriante
inundasse-o, n’osmoses!
De onde viria a apoteose
– esfuziante –
senão do fóssil que se esfaz
pela ventania dum tempo mais-que-perfeito?
O tempo – o tempo –
volve-lhe cãs
em vivacidade. Apenas se,
nas manhãs
souber-se-lhe
volvido.
E assim eu o vi
deixando o só;
deixando-o pedra
nos caminhos
sem vento.
Esfarelado, plana
- já consigo -
sobre as rochas frias
e inertes
de si próprio...
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Cancioneiro
Ah! Cantar a rente querela
- este cancioneiro perene! -
num violão fosco!
Soltar, às cordas, o sol desafinado e solene;
e deixá-lo vogar além das janelas;
como se murmurasse Villalobos!
Completar as frestas
com cântico natural
do lânguido eucalipto das florestas
que de encantos, há-se olvido!
Deixar-se-lhe ser, sentir-se-lhe ouvido,
assim que incutido, pelo sopro celestial!
E cantar! Cantar na linha
a tortuosidade divinal;
sentir que a mão caminha,
quebrando penedos;
em caminhos tredos;
em canto sonial!
E quando no hexacorde
um solfejo emanar, ultimogênito:
Ver a querela rente
débil, tornada frêmito
pelo superno acorde
deveras plangente...
Verso A Olho Vestido
Cego,
tentei escrever o Mais
do que as rosas
podem colorir...
Escrevi versos
que se fizeram espuma!
Continuei escrevendo
- esfregando as flores -
até que os calos
lavassem cores...
Sei não se versos...
ou brumas;
não consegui distinguir.
Nem mesmo o rubro orvalho
deitando-se à rosa
na prosa dum verso
a se extinguir...
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Eu Quero III
Eu quero a gargalhada polvorosa!
Este alarido, ao silêncio, investindo.
Quero su’alma toda em mim sorrindo
E o prazer lhe aportando em cores rosa!...
Eu quero, entre dois corpos, nossa prosa,
que fala de se ter em sonho infindo
O coração, por ti, já sucumbindo
à sensação mais forte e poderosa!
Não muito for, eu quero se, poesia
for desvelada: redigida - e louca!
Com os mesmos traços pulcros da sua boca...
Arremessar-me a lira em sintonia
Com seu rosto, já rosa de prazer:
Versar sob o nariz, desfalecer...
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Dessujeito
Quero o Amor, da garganta, destravado:
Em livre exploração pelo meu leito!
E ao tombar-se, suave, no meu peito
Saber-mo vivo, farto e revelado!
O sopro proferido; dessujeito.
Junto dos céus - no ar denso e ficado!
Não quero o amor em mim asfixiado,
nem baldo, como fosse rarefeito!...
Quero a garganta enérgica, angustiante,
De altissonoro estrondo, palpitando!...
A pronunciar o amor como uma fera!
E quando ela explodir agonizante
Toda certeza de se estar amando,
Desentranhar por toda atmosfera!
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Eu Quero II
Eu quero. E quero muito este acalanto:
Sonhar que poderei ter finalmente
- e me acordar apaixonadamente -
O amor que se prendia ao campo-santo....
Eu quero! Ah, quero! E quero tanto!
Externar para ti, veementemente
Que, de fato, tu és-me assim pungente
por existir, e me existir-te encanto...
Quero! E não deixarei mais enterrado
O amor, que em mim vivia como morte
Por ser velado por ser-me tão forte!
E quero mais: que seja fenestrado
Pra que possa voar! Partir, amém,
à tu’alma; gerar meu Big Bang!...
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
O Amor
O fôlego da vida! Encantamento!
Nasceu no beijo, e beija-me ainda
se infiltra nos meus lábios; nunca finda.
Quisera tê-lo em todos os momentos!
Encanto que apinha todos os ventos
Que num rodamoinho, sua entrevinda
Nos faz voar, e a vida tão mais linda,
é azul, como num céu de sentimento!...
O fôlego qu’inda nos faz arfar!
E torna pando o vento doravante
a estimular a vida - dá-la um escopo...
Ó grande amor! Corrente azul de ar!
Faça pungir na pele, arrepiante,
a intensidade dum último sopro!...
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Quando o Amor Fala
Eu perturbei: "- Fala-me o que é bonito?"
E ela respondeu, cauta: "- Não sei!"
E seu talvez ma fizera infinito
por toda dubiedade que incitei...
Eu me indaguei: "O que posso, o que sei
sobre o que é bonito?" E se bendito
fosse o Não Sei, também seria lei
Como são leis os, sim e não, finitos?
"- Não sei!" - Ela falou, e eu, parado
achei que suas palavras eram loucas
Mas vi que o que era belo que era errado!
Mas hoje o que sei, é o que não sabem
que quaisquer frases ditas da sua boca
são tão belas que à beleza não cabem!...
Suicídio Lírico
Basta! Eu prefiro, rápida, mi’a Morte
Mas não porque a vida, em si, não valha
Enquanto, lentamente, ao corpo talha
pode ser, comandá-la, a única sorte...
E por sorte, não precisa ser forte,
nem lenta minha morte. E a mortalha
n’olhos dos Sangues meus, os estraçalha
ver timbrada ao Além;... meu passaporte...
Que venha logo todo este negrume!
Vejo-me caminhar afora ao lume
retirando meu sopro do Universo...
Que venha! Venha em morte ou venha em verso!
E faça do suicídio meu acesso
a entrada para o literato Nume!
Choro de Libertação
I
Chore! Deixe que toda su’alma role
pelos pântanos de um semblante fel
e ver-se-á arqueada sobre o cole
refletindo cor neste negral léu
como reflete o arco-íris no céu.
Deixe que su’alma umidifique, molhe
e empoce de esperança. Deixe! Chore!
Transforme a lama em Ilha de Bornéu!
Que sei, desejará singrá-la toda
como quem navega à felicidade
ainda que, lá atrás, sua mocidade
desejasse vogar por toda boda
de papel, de diamante ou de platina.
Chore! Faça o teu mar livre! Menina!
II
Sente, o vento aliseu, na singradura?
Bem saiba, mi’a menina, é a esperança
é toda liberdade da bonança
que vicejou em sua semeadura.
Sente, nas ondas, sua vida pura
manumissão e toda aventurança?
É o balançar de quando era criança
e amava, sem perturbar-se em clausura.
Agora, a navegar, no próprio choro
d’alma; não aceitará um desaforo!
Desbravará o mundo que não viu...
Navegue o choro da libertação
e deixe para trás, toda ilusão
Levantando sua vela ao esposo vil!
Chore! Deixe que toda su’alma role
pelos pântanos de um semblante fel
e ver-se-á arqueada sobre o cole
refletindo cor neste negral léu
como reflete o arco-íris no céu.
Deixe que su’alma umidifique, molhe
e empoce de esperança. Deixe! Chore!
Transforme a lama em Ilha de Bornéu!
Que sei, desejará singrá-la toda
como quem navega à felicidade
ainda que, lá atrás, sua mocidade
desejasse vogar por toda boda
de papel, de diamante ou de platina.
Chore! Faça o teu mar livre! Menina!
II
Sente, o vento aliseu, na singradura?
Bem saiba, mi’a menina, é a esperança
é toda liberdade da bonança
que vicejou em sua semeadura.
Sente, nas ondas, sua vida pura
manumissão e toda aventurança?
É o balançar de quando era criança
e amava, sem perturbar-se em clausura.
Agora, a navegar, no próprio choro
d’alma; não aceitará um desaforo!
Desbravará o mundo que não viu...
Navegue o choro da libertação
e deixe para trás, toda ilusão
Levantando sua vela ao esposo vil!
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Casquejando a Alma
Amo-te: - A minha chaga se revulsa
por cada toque favo da tua boca!
- E quanto mais babujas-me tu expulsas
d’alma a cesura de pústulas ocas...
Em todo nosso amor, a alma propulsa
e a insalubridade se faz louca
no coração sadio, que ora pulsa
embevece minh’alma n’ora outra...
Sinto-ma inspirar um fausto carme
um misto de minh’alma, e de desejo
Desmedido por teu jeito; teu charme...
Casquejo o imo, e as mãos em sacolejo
escrevem-te do amor de impulsonar-me
e salutar-me a vida com teus beijos!...
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