Um homem que te ame, que te adore
Que a sirva numa louça de Veneza
Um homem que enalteça tua beleza
Que por ti ria, grite, e também chore!
Um homem que não há na Natureza;
que mais pareça conto de folclore!...
que só por lhe sorrires comemore;
se vanglorie em ter uma princesa!...
Amar um homem, tê-lo por inteiro!
É o que mulher deseja em tempo infindo;
Charmoso, inteligente, rico... lindo!
Terá do amor supremo e verdadeiro
tal homem que há de amar-te. Todavia
se nunca o amares... tu? Nem por um dia!
"Quando nasce o amor, em si,
renasce, pois, nas coisas
e as cores são cirandas..."
Osvaldo Fernandes
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Longe, Longe...
Vives fora, longe...
longe...
onde um monge não medita;
onde o sol lhe traz mais cor
onde o toque se acredita
longe, longe!
Vives fora! Ó minha Flor.
Lá as flores não tremulam
cada nuvem se há pausada!
Mas a tua voz airada,
diamantes, quando ululas
sinto e vejo
longe, longe,
minha Flor.
Acolá, tão longe...
longe...
Há meu céu, o novo tempo;
há, por entre ventos, Vento,
que barganho com a aurora
pois lá fora,
longe, longe,
a distância é mais que a hora,
e o presente
é minha Flor.
Mais presente é ter o Vento,
“– Ó meu Vento ide longe,
longe, longe!
Guiai-me no céu, no lume:
esta Flor; e justaponde
teu perfume em meu perfume!
Transportai-me teus pedaços!”
pois que ter de ti o abraço,
longe, longe
só no tempo
em que o Vento
for o Amor...
longe...
onde um monge não medita;
onde o sol lhe traz mais cor
onde o toque se acredita
longe, longe!
Vives fora! Ó minha Flor.
Lá as flores não tremulam
cada nuvem se há pausada!
Mas a tua voz airada,
diamantes, quando ululas
sinto e vejo
longe, longe,
minha Flor.
Acolá, tão longe...
longe...
Há meu céu, o novo tempo;
há, por entre ventos, Vento,
que barganho com a aurora
pois lá fora,
longe, longe,
a distância é mais que a hora,
e o presente
é minha Flor.
Mais presente é ter o Vento,
“– Ó meu Vento ide longe,
longe, longe!
Guiai-me no céu, no lume:
esta Flor; e justaponde
teu perfume em meu perfume!
Transportai-me teus pedaços!”
pois que ter de ti o abraço,
longe, longe
só no tempo
em que o Vento
for o Amor...
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Fomentação
Criou-se desta orelha qual ungiste:
recordações em mim que – mal passadas –
tomaram vida, decolando aladas
de inconsciência rude que brandiste.
E alado um tempo, uma paixão, um chiste,
uma razão de ser, voando, aladas
trouxeram-me de volta, ruminadas
reminiscências da paixão mais triste!
E criou-se, desta orelha, fomentando,
a mais excelsa e suave cantoria
que possa o amor furtar da cotovia!
Criou-se!... E em mim o amor, criou-se, quando
levaste, das orelhas, tuas mãos
e sotrancaste nelas tua canção!
recordações em mim que – mal passadas –
tomaram vida, decolando aladas
de inconsciência rude que brandiste.
E alado um tempo, uma paixão, um chiste,
uma razão de ser, voando, aladas
trouxeram-me de volta, ruminadas
reminiscências da paixão mais triste!
E criou-se, desta orelha, fomentando,
a mais excelsa e suave cantoria
que possa o amor furtar da cotovia!
Criou-se!... E em mim o amor, criou-se, quando
levaste, das orelhas, tuas mãos
e sotrancaste nelas tua canção!
O Larápio
Arrancava de mim todos os quandos:
a base era buraco, o teto era asa
e tudo em brasas se me convergia
líquidos, como lavas, derramando
dentro às veias do corpo em todo quando.
Arrancava de mim toda energia:
do trabalho; da essência, até do sono
como se fosse o dono desta casa
erguida de imatura alvenaria
duma assaz construção desta energia.
Arrancava de mim toda atenção:
os pássaros; a cor – era o gatuno,
um sentimento uno de magia;
uma alquimia para o coração
que convergia em si, toda atenção...
Arranca, pois, Larápio, tudo é teu!
os devaneios; pensamentos, risos
a loucura, o juízo, a poesia!...
E faze acreditar que não morreu
o eu que havia em mim, quando fui teu...
a base era buraco, o teto era asa
e tudo em brasas se me convergia
líquidos, como lavas, derramando
dentro às veias do corpo em todo quando.
Arrancava de mim toda energia:
do trabalho; da essência, até do sono
como se fosse o dono desta casa
erguida de imatura alvenaria
duma assaz construção desta energia.
Arrancava de mim toda atenção:
os pássaros; a cor – era o gatuno,
um sentimento uno de magia;
uma alquimia para o coração
que convergia em si, toda atenção...
Arranca, pois, Larápio, tudo é teu!
os devaneios; pensamentos, risos
a loucura, o juízo, a poesia!...
E faze acreditar que não morreu
o eu que havia em mim, quando fui teu...
Entre Sonho
Sonhava dizer-te adeus neste dia:
O sol despontava fulvo lá fora
De luz e calor tua graça se ungia,
– Que linda, perfeita, a minha senhora!
Não pude mentir-te enquanto bem via
Descendo as escadas, naquela hora,
Tomada de sol, vestida de aurora
Meu peito pulava e amor eu sentia.
E o quanto eu sentia! E quanto te olhava!
Sentia e olhava. Olhava e sentia
A dor que causava quando eu dizia:
“– Estou indo embora. Adeus, ó Senhora
Tomada de sol, vestida de aurora!”
E enquanto eu partia, o peito pulava...
E então despertava. E a aurora nascia!...
Parida em teu rosto; untando os cabelos:
“– Se adeus te dissesse, Ó minha senhora
Serias tu, sonho, e eu só... pesadelo!...”
O sol despontava fulvo lá fora
De luz e calor tua graça se ungia,
– Que linda, perfeita, a minha senhora!
Não pude mentir-te enquanto bem via
Descendo as escadas, naquela hora,
Tomada de sol, vestida de aurora
Meu peito pulava e amor eu sentia.
E o quanto eu sentia! E quanto te olhava!
Sentia e olhava. Olhava e sentia
A dor que causava quando eu dizia:
“– Estou indo embora. Adeus, ó Senhora
Tomada de sol, vestida de aurora!”
E enquanto eu partia, o peito pulava...
E então despertava. E a aurora nascia!...
Parida em teu rosto; untando os cabelos:
“– Se adeus te dissesse, Ó minha senhora
Serias tu, sonho, e eu só... pesadelo!...”
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Espumas II
Qual fonte da amplidão e brota de friagem;
Da alvura luxuosa e alegre sendo a fronte
Vê-se parir na areia, advindas do horizonte,
As vagas, suas crianças, mães da paisagem:
Atônitos, honrando-a, as lapas mais os montes
de almiscarado brilho, esplende esta miragem:
Na falda um verde-cré alvíssimo interage
Mesmo antes que alvorada ao píncaro desponte...
E lá se vêm felizes, doudas, a mancheias,
trazendo a maresia, estando uma por uma,
dispersas pela vaga; estendidas na areia.
Sentado, da colina, escrevendo das frondes
Um colossal sorriso eu largo a olhar espumas:
as crianças do mar brincando um pique-esconde...
Da alvura luxuosa e alegre sendo a fronte
Vê-se parir na areia, advindas do horizonte,
As vagas, suas crianças, mães da paisagem:
Atônitos, honrando-a, as lapas mais os montes
de almiscarado brilho, esplende esta miragem:
Na falda um verde-cré alvíssimo interage
Mesmo antes que alvorada ao píncaro desponte...
E lá se vêm felizes, doudas, a mancheias,
trazendo a maresia, estando uma por uma,
dispersas pela vaga; estendidas na areia.
Sentado, da colina, escrevendo das frondes
Um colossal sorriso eu largo a olhar espumas:
as crianças do mar brincando um pique-esconde...
domingo, 16 de janeiro de 2011
Entre Chuvas e Ninos
Lá fora a chuva tenra nos ninava.
Em nosso leito, mais de ti sentia
O teu sorriso, a tua alegria!
Adormecias. Teu sonho eu sonhava.
Sonhava! E em teu cabelo agrisalhava
O negro jovial que amei um dia,
Lembrava que fitando-te eu sorria,
E quanto mais sorrindo, eu te lembrava...
Tudo passou! Mas quando a chuva canta
Mesmo que solitário no meu leito
Uma lembrança indene se agiganta:
O meu sorriso mágico e um nino;
A alvura das madeixas no meu peito;
O dia cinza. O amor. Tu... e um menino...
Em nosso leito, mais de ti sentia
O teu sorriso, a tua alegria!
Adormecias. Teu sonho eu sonhava.
Sonhava! E em teu cabelo agrisalhava
O negro jovial que amei um dia,
Lembrava que fitando-te eu sorria,
E quanto mais sorrindo, eu te lembrava...
Tudo passou! Mas quando a chuva canta
Mesmo que solitário no meu leito
Uma lembrança indene se agiganta:
O meu sorriso mágico e um nino;
A alvura das madeixas no meu peito;
O dia cinza. O amor. Tu... e um menino...
Som dos Sinos
Por mil caminhos vadiando torto,
de calejado passo, o pé franzino
se doravante, mais parece morto;
se preso à senda que passou, mofino...
Mas eis que ao solto andejo, só e absorto,
junto ao meu passo, tilintando sinos,
ouço do amor e dos seus sons, conforto,
no interior como brincasse um nino...
Vi-a sentada. Seu olhar fincado
no meu olhar, cá dentro ouvi bramindo
esta algazarra angelical benquista!
– Qual é seu nome, ó Carrilhão soado?
Interroguei-lhe adentro, já sorrindo:
– Chamam-me amor... quando à primeira vista!
de calejado passo, o pé franzino
se doravante, mais parece morto;
se preso à senda que passou, mofino...
Mas eis que ao solto andejo, só e absorto,
junto ao meu passo, tilintando sinos,
ouço do amor e dos seus sons, conforto,
no interior como brincasse um nino...
Vi-a sentada. Seu olhar fincado
no meu olhar, cá dentro ouvi bramindo
esta algazarra angelical benquista!
– Qual é seu nome, ó Carrilhão soado?
Interroguei-lhe adentro, já sorrindo:
– Chamam-me amor... quando à primeira vista!
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Do Lábaro Azul

Por sob olhar queimoso do astro-rei
coser todo suor que toma a leira,
dos que da terra adoram, na bandeira,
tal como um povo unido fosse lei.
Tingir, seja o plebeu ou seja o rei,
rainha ou tal a simples costureira
assim como atingisse a cor certeira,
num pano, todo orgulho de uma grei.
Fazer estremecer da haste a certeza
que as brisas trazem sonhos agoureiros
e tempos alvos nesta amareleza...
Contar vinte uma estrelas por aí
E ter certeza, todo brasileiro,
que há céu desde Oiapoque até o Chuí!
Cirurgia
Deitado nesta cama de doentes
um medo me resvala impetuoso.
Quisera eu ser de um mundo mais ditoso,
Pacífico, impoluto e quiescente!
Agora, em meio a tanto entorpecente,
profiro um credo, um rogo desejoso
de quando, como agora, desgostoso
sombrio eu era, ainda adolescente:
"– Venha buscar-me, ó Morte! Venha logo!"
Um choramingo eu ouço quando a rogo
deitado no meu leito, exausto e laxo.
Empunha um bisturi, começa o corte:
numa explosão de brilhos sinto a morte,
como gota escorrendo foice abaixo...
um medo me resvala impetuoso.
Quisera eu ser de um mundo mais ditoso,
Pacífico, impoluto e quiescente!
Agora, em meio a tanto entorpecente,
profiro um credo, um rogo desejoso
de quando, como agora, desgostoso
sombrio eu era, ainda adolescente:
"– Venha buscar-me, ó Morte! Venha logo!"
Um choramingo eu ouço quando a rogo
deitado no meu leito, exausto e laxo.
Empunha um bisturi, começa o corte:
numa explosão de brilhos sinto a morte,
como gota escorrendo foice abaixo...
Para Sempre
Fiquemos sós, querida.
Eu menos tu. Só de ti, só de nós.
Fiquemos livres, vivos! Fiquemos contidos nas nossas almas.
Deixemos que o corpo – templo da ignorância e da farta burriquice – aprenda, sozinho, como se morto inda existisse.
Fiquemos soltos e alados;
sossegados, perdidos ao hálito do vento,
que um torvelinho, no templo, se nos lembrará.
Fiquemos sós, querida.
E num próximo encontro, menos terno
o gozo que teu corpo me herdas,
num gemido silente, terás por eterno.
Nossas almas, completas de nós, serão a Natureza.
E do corpo, a torvelinhos, se ouvirão os uivos, se ficarmos sós.
Fiquemos sós, querida.
Para sempre.
Eu menos tu. Só de ti, só de nós.
Fiquemos livres, vivos! Fiquemos contidos nas nossas almas.
Deixemos que o corpo – templo da ignorância e da farta burriquice – aprenda, sozinho, como se morto inda existisse.
Fiquemos soltos e alados;
sossegados, perdidos ao hálito do vento,
que um torvelinho, no templo, se nos lembrará.
Fiquemos sós, querida.
E num próximo encontro, menos terno
o gozo que teu corpo me herdas,
num gemido silente, terás por eterno.
Nossas almas, completas de nós, serão a Natureza.
E do corpo, a torvelinhos, se ouvirão os uivos, se ficarmos sós.
Fiquemos sós, querida.
Para sempre.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Dos Peixes
Furtam meus olhos pelos seus trejeitos
O Olhudo, O Aquarela e O Nemo-velho.
Planam pelo aquário me chamando,
pousam suas barbatanas no escafandro
que lhes renova todo oxigênio.
Admirado, levo as mãos ao vidro,
(assim minha alma é, quando mostrada?)
não fogem, não se movem, ficam lindos!
E eu lembro a velha solidão que me enche
quando digo um olá e ouço três nadas...
O Olhudo, O Aquarela e O Nemo-velho.
Planam pelo aquário me chamando,
pousam suas barbatanas no escafandro
que lhes renova todo oxigênio.
Admirado, levo as mãos ao vidro,
(assim minha alma é, quando mostrada?)
não fogem, não se movem, ficam lindos!
E eu lembro a velha solidão que me enche
quando digo um olá e ouço três nadas...
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
O Acaso
Uma poeira presa
à quina da parede.
Passeia distraído
um cachorro ao seu lado.
O acaso é este cachorro
de poeira se enchendo.
É a transformação
de um destino ocorrendo.
Modifica-o com o tempo,
e o tira a origem, cor,
é o que o acaso faz!
(pro estímulo ou langor)
A poeira – o destino;
Nasceu sem liberdade!
O acaso torna fado
outras mil realidades.
E se eu fosse liberto
veria os seus sinais
sutis, que modificam
a minha vida inteira?
Não sei. Sou desligado
ao que vem na dianteira.
Não nasci pra cachorro,
mas sei: serei poeira...
à quina da parede.
Passeia distraído
um cachorro ao seu lado.
O acaso é este cachorro
de poeira se enchendo.
É a transformação
de um destino ocorrendo.
Modifica-o com o tempo,
e o tira a origem, cor,
é o que o acaso faz!
(pro estímulo ou langor)
A poeira – o destino;
Nasceu sem liberdade!
O acaso torna fado
outras mil realidades.
E se eu fosse liberto
veria os seus sinais
sutis, que modificam
a minha vida inteira?
Não sei. Sou desligado
ao que vem na dianteira.
Não nasci pra cachorro,
mas sei: serei poeira...
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Corpo Lançado
E lá se vai bailando pelo ar
com seu vestido prateado, a moça
do morro, da cidade, da favela,
bailando, cintilante, lá vai ela,
avista um morenão alto, simpático,
de cabeça lhe alveja o coração,
perfura-lhe o amor, queima, mutila
e pousa, úmida e rubra, pelo chão...
com seu vestido prateado, a moça
do morro, da cidade, da favela,
bailando, cintilante, lá vai ela,
avista um morenão alto, simpático,
de cabeça lhe alveja o coração,
perfura-lhe o amor, queima, mutila
e pousa, úmida e rubra, pelo chão...
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Mãos
Quando o teu corpo
eu encontrar, tateá-lo-ei
com as línguas das minhas mãos.
Com elas contarei
todos os meus sonhos!
Explanarei, suavemente,
sobre o meu amor por ti.
E quando, de mim, tudo
tiveres sabido
deixarei que as tuas
sejam meu ouvido
a desbravar teus segredos...
eu encontrar, tateá-lo-ei
com as línguas das minhas mãos.
Com elas contarei
todos os meus sonhos!
Explanarei, suavemente,
sobre o meu amor por ti.
E quando, de mim, tudo
tiveres sabido
deixarei que as tuas
sejam meu ouvido
a desbravar teus segredos...
Papel em Branco
Em um papel também renasce a vida.
Saem sons que de sonâncias evoluem
mediante emoções que afora fluem
ora no branco e ora cintilando...
A natureza é um poço de mudança.
Ora está noite, ora está luzida.
Assim que sou, enquanto estou versando.
Em branco só o que fica é a esperança
de mostrar emoção, fazê-los tê-la,
pois que em mim passa o dia, e tudo fora
também passa emoção, sentir, beleza:
tudo onde é branco nasce uma mensagem
como nascesse em nós, mil paisagens
como não vendo eu pudesse revê-la,
e se pintasse em nós, a Natureza!
Disso só soube ao espiar o céu:
A noite escreve imagens nas estrelas
enquanto escrevo letras no papel...
Saem sons que de sonâncias evoluem
mediante emoções que afora fluem
ora no branco e ora cintilando...
A natureza é um poço de mudança.
Ora está noite, ora está luzida.
Assim que sou, enquanto estou versando.
Em branco só o que fica é a esperança
de mostrar emoção, fazê-los tê-la,
pois que em mim passa o dia, e tudo fora
também passa emoção, sentir, beleza:
tudo onde é branco nasce uma mensagem
como nascesse em nós, mil paisagens
como não vendo eu pudesse revê-la,
e se pintasse em nós, a Natureza!
Disso só soube ao espiar o céu:
A noite escreve imagens nas estrelas
enquanto escrevo letras no papel...
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Angústia
Uma ânsia, um enjôo, falta de ar!
Vejo a Terra diagonando em novo grau
Deglutindo a festa ao lado, lhe empoando,
e emanando um pútrido instante mortal!
Eu acordo: “- Ufa! Graças! Pesadelo!”
Não me agüento: chego às claras da janela
E tremendo inda lhe dou uma olhadela,
Há falanges e uma mão, ensangüentadas(!),
da vizinha! Morreu, ei-la esquartejada...
Um enjôo, um desmaio e estou no chão.
Todo horror que se me envolve, não quis tê-lo;
todo pesadelo é sério, e sonho, vão...
Vejo a Terra diagonando em novo grau
Deglutindo a festa ao lado, lhe empoando,
e emanando um pútrido instante mortal!
Eu acordo: “- Ufa! Graças! Pesadelo!”
Não me agüento: chego às claras da janela
E tremendo inda lhe dou uma olhadela,
Há falanges e uma mão, ensangüentadas(!),
da vizinha! Morreu, ei-la esquartejada...
Um enjôo, um desmaio e estou no chão.
Todo horror que se me envolve, não quis tê-lo;
todo pesadelo é sério, e sonho, vão...
terça-feira, 9 de novembro de 2010
O Outro
Se minh'alma em meu espírito transfundo;
no profundo faz nascer um novo eu,
quem sou eu se dois em um vivo no mundo
oriundo junto a outro que nasceu?
Um é muito! Dois é quando me confundo
E se não difundo o meu de todo o seu
Sei que se desvaneceu por um segundo
pra fecundo lhe saber – me aconteceu!
Ponho em frente sempre quando me aparece
o meu ser único, de instintos chacais,
que no entanto é racional, vívido e douto.
Desfraldar-lhe tento, enfim, faço até prece!
Pois melhor sempre quis ser, que este ser, mas
como posso ser mais eu se sou o outro?
no profundo faz nascer um novo eu,
quem sou eu se dois em um vivo no mundo
oriundo junto a outro que nasceu?
Um é muito! Dois é quando me confundo
E se não difundo o meu de todo o seu
Sei que se desvaneceu por um segundo
pra fecundo lhe saber – me aconteceu!
Ponho em frente sempre quando me aparece
o meu ser único, de instintos chacais,
que no entanto é racional, vívido e douto.
Desfraldar-lhe tento, enfim, faço até prece!
Pois melhor sempre quis ser, que este ser, mas
como posso ser mais eu se sou o outro?
domingo, 7 de novembro de 2010
Solitário Negro
À noite, quando todos adormecem
e hei ínfimo e único em mim mesmo,
um astro como trespassasse a esmo
num eterno vazio, me estremece.
A Morte se me punge o pensamento
– o mesmo, no silêncio das respostas,
lhe tem como afeição – e é pressuposta
a cessação dos meus questionamentos.
Alvejo os céus, enquanto inerte às mãos
um revólver, o ardil, se refestela
dum solitário negro que me irrompe...
À cabeça o dirijo – à escuridão! –
no céu, brilha um cometa e me congela;
um telefone toca e me interrompe...
e hei ínfimo e único em mim mesmo,
um astro como trespassasse a esmo
num eterno vazio, me estremece.
A Morte se me punge o pensamento
– o mesmo, no silêncio das respostas,
lhe tem como afeição – e é pressuposta
a cessação dos meus questionamentos.
Alvejo os céus, enquanto inerte às mãos
um revólver, o ardil, se refestela
dum solitário negro que me irrompe...
À cabeça o dirijo – à escuridão! –
no céu, brilha um cometa e me congela;
um telefone toca e me interrompe...
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Se Te Espantas
Se algo te espanta na mudez
que resolvi por ter, num ponto
em que d’amor fui o mais tonto,
perdoa minha insensatez...
Se algo te espanta nesta ausência
afora a carne, ausência viva;
torna a saudade em ti, ativa,
conserva viva minha presença.
Que nem percebo; houvera em mim!
Moço da inércia, antes tão leino;
Castelo ocluso, de onde o reino
em trono amor, senta-se o fim.
Se algo te move e se agiganta
em devir triste, em desventuras,
revive e lembra da ternura
presente enfim, se algo te espanta...
que resolvi por ter, num ponto
em que d’amor fui o mais tonto,
perdoa minha insensatez...
Se algo te espanta nesta ausência
afora a carne, ausência viva;
torna a saudade em ti, ativa,
conserva viva minha presença.
Que nem percebo; houvera em mim!
Moço da inércia, antes tão leino;
Castelo ocluso, de onde o reino
em trono amor, senta-se o fim.
Se algo te move e se agiganta
em devir triste, em desventuras,
revive e lembra da ternura
presente enfim, se algo te espanta...
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Ofídica Virgem
Deleita o toque e às pálpebras deleita
Ver-te e sentir-te às retinas focadas.
Em seda grossa, a carne enviesada
Dos sorrisos, volúpias liquefeitas.
Acertas todo prumo ainda deitada
À graça, extenuada e satisfeita.
Tornas da pele, a mais fatal, eleita
Na areia de lençóis, colubreada.
Devolves-me o olhar, sibila, e chama.
Um chocalho perfura a minha mente,
retumba algo de amor e caio exangue,
sentindo, em teu deserto – a nossa cama –
ofídicas picadas, vorazmente,
fazer pulsar veneno onde era sangue...
Ver-te e sentir-te às retinas focadas.
Em seda grossa, a carne enviesada
Dos sorrisos, volúpias liquefeitas.
Acertas todo prumo ainda deitada
À graça, extenuada e satisfeita.
Tornas da pele, a mais fatal, eleita
Na areia de lençóis, colubreada.
Devolves-me o olhar, sibila, e chama.
Um chocalho perfura a minha mente,
retumba algo de amor e caio exangue,
sentindo, em teu deserto – a nossa cama –
ofídicas picadas, vorazmente,
fazer pulsar veneno onde era sangue...
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Grande Viagem
Busquei no mundo em passos sáfios a viagem.
Busquei nos gritos duma aragem, meios, fins.
Busquei sozinho e nunca tive uma mensagem
Que então pudesse me fulgir se fui ou vim.
Segui ganhando as ruas rudes; das paisagens
Pensei fugir; pensei morrer. Sair de mim.
Cansei buscar! Tentei enfim numa chantagem,
Ter, coagindo a natureza, o meu jardim.
Jardim sublime em que germino-me entre as flores
para existência do meu ser, minh’alma exposta:
motivo o qual os pés caminham sobre as dores
que fortalecem quando entendo então que a esmo
ganhar o mundo é ilusão. Tenho a resposta:
destas viagens, a maior, fora em mim mesmo!...
Busquei nos gritos duma aragem, meios, fins.
Busquei sozinho e nunca tive uma mensagem
Que então pudesse me fulgir se fui ou vim.
Segui ganhando as ruas rudes; das paisagens
Pensei fugir; pensei morrer. Sair de mim.
Cansei buscar! Tentei enfim numa chantagem,
Ter, coagindo a natureza, o meu jardim.
Jardim sublime em que germino-me entre as flores
para existência do meu ser, minh’alma exposta:
motivo o qual os pés caminham sobre as dores
que fortalecem quando entendo então que a esmo
ganhar o mundo é ilusão. Tenho a resposta:
destas viagens, a maior, fora em mim mesmo!...
domingo, 17 de outubro de 2010
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Aprisionado
Ao trono da obra eu sento.
Soltarei do abstrato o que se quer real.
Tento uma estrofe.
Ponho-me afastado.
Contesto cada milímetro.
E soam-me milímetros, apenas.
Não me acredito e me questiono.
Esta prisão desaventurada!
Pra ser feliz... só se fosse completo em preto e branco...
...em timbre suave e bem ouvido.
Tímido e carmim. Ah! Eu seria.
Faria falecidos todos os fantasmas em horas de riso;
mas ponho-me afastado,
e me carece um gênio...
Soltarei do abstrato o que se quer real.
Tento uma estrofe.
Ponho-me afastado.
Contesto cada milímetro.
E soam-me milímetros, apenas.
Não me acredito e me questiono.
Esta prisão desaventurada!
Pra ser feliz... só se fosse completo em preto e branco...
...em timbre suave e bem ouvido.
Tímido e carmim. Ah! Eu seria.
Faria falecidos todos os fantasmas em horas de riso;
mas ponho-me afastado,
e me carece um gênio...
Dos Brilhos e Ecos
Quando a última luz
cingir-lhes a escuridão
os povos solitários
longínquos, céleres – aos brados
terão da solidão
o eco que a produz.
Terão, nas vagas da luz,
um deslize de existência.
Se afastarão da sapiência,
e ter-se-ão, solitários
perante a cruz,
em rezas de ermitério.
Louvarão pelo mistério,
e por todos os outros,
aparentemente felizes
povos lindeiros:
serão chamados loucos,
desgraçados, aprendizes
andadeiros!...
Do tempo furtarão
a dificuldade das horas
que se transfazem em martírios
irrelevantes à solidão.
E surgirá o delírio,
dum vazio em que o eco de solidão
completava outrora...
E assim, sozinhos,
(em seus corações)
os reféns do atemporal,
caminharão sem tropeço,
por toda escuridão.
Terão carinho e apreço
pelos que em outro caminho,
- o da luz racional –
são moucos, tarecos
fechados aos ecos,
de incertos clarões:
os mais solitários,
perdidos,
ermitões...
cingir-lhes a escuridão
os povos solitários
longínquos, céleres – aos brados
terão da solidão
o eco que a produz.
Terão, nas vagas da luz,
um deslize de existência.
Se afastarão da sapiência,
e ter-se-ão, solitários
perante a cruz,
em rezas de ermitério.
Louvarão pelo mistério,
e por todos os outros,
aparentemente felizes
povos lindeiros:
serão chamados loucos,
desgraçados, aprendizes
andadeiros!...
Do tempo furtarão
a dificuldade das horas
que se transfazem em martírios
irrelevantes à solidão.
E surgirá o delírio,
dum vazio em que o eco de solidão
completava outrora...
E assim, sozinhos,
(em seus corações)
os reféns do atemporal,
caminharão sem tropeço,
por toda escuridão.
Terão carinho e apreço
pelos que em outro caminho,
- o da luz racional –
são moucos, tarecos
fechados aos ecos,
de incertos clarões:
os mais solitários,
perdidos,
ermitões...
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Do Compromisso
Compromisso em minha vida é anacrônico.
Planejado numa agenda desfolhada:
Não tem data, nem destino ou dia certo.
A segunda pode ser domingo ou sexta.
Pode estar fazendo frio absoluto
No solstício de verão.
Planejado numa agenda desfolhada:
Não tem data, nem destino ou dia certo.
A segunda pode ser domingo ou sexta.
Pode estar fazendo frio absoluto
No solstício de verão.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
A Casa Mal Assombrada
Por entre as entranhas
da Casa Assombrada
vivia, calada
minh’alma tacanha...
Na pele – a fachada
em que rugas pendem
no disforme alpendre –
ela está trancada...
O corpo a rejeita
(qual casa que expulsa
tristezas, repulsas
dum'alma imperfeita...)
Mas inda se habita
na casa – o meu corpo.
Um abalo torto
Treme-lhe e palpita.
Minh’alma se esconde.
Meu corpo estremece.
Nem a melhor prece
que há, me responde
Do escuro que dura,
do alarde indevoto!
Mais um terremoto!
A alma se fratura.
Em cacos e exangue
Roga por viver.
Serpeia sem ver.
Levanta-se: há sangue.
Enquanto adoece
E um choro lhe aperta
No sal se liberta!
Da casa esvanece...
No corpo – que é a mesma
tal “Casa Assombrada” –
não vive mais nada,
só resta avantesmas...
da Casa Assombrada
vivia, calada
minh’alma tacanha...
Na pele – a fachada
em que rugas pendem
no disforme alpendre –
ela está trancada...
O corpo a rejeita
(qual casa que expulsa
tristezas, repulsas
dum'alma imperfeita...)
Mas inda se habita
na casa – o meu corpo.
Um abalo torto
Treme-lhe e palpita.
Minh’alma se esconde.
Meu corpo estremece.
Nem a melhor prece
que há, me responde
Do escuro que dura,
do alarde indevoto!
Mais um terremoto!
A alma se fratura.
Em cacos e exangue
Roga por viver.
Serpeia sem ver.
Levanta-se: há sangue.
Enquanto adoece
E um choro lhe aperta
No sal se liberta!
Da casa esvanece...
No corpo – que é a mesma
tal “Casa Assombrada” –
não vive mais nada,
só resta avantesmas...
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Das Dores Que Bailam
Uma mulata! É como adentro sinto:
as dores vão sambando pelo corpo
e quando param de dançar pressinto
que no próximo mês estarei morto...
O samba vai tocando e então absorto
esqueço até da dor, (será que minto?)
Mas volta a ressoar um bumbo torto
que já volta a apagar com vinho tinto!
O álcool no salão embaça a dama
e as dores somem, mas acabo imundo,
Embriagado e sujo em minha cama...
— Quem tanta dor aguenta? Como pode?
Nem isto importa quando ouço lá fundo
setenta mil bandinhas de pagode...
as dores vão sambando pelo corpo
e quando param de dançar pressinto
que no próximo mês estarei morto...
O samba vai tocando e então absorto
esqueço até da dor, (será que minto?)
Mas volta a ressoar um bumbo torto
que já volta a apagar com vinho tinto!
O álcool no salão embaça a dama
e as dores somem, mas acabo imundo,
Embriagado e sujo em minha cama...
— Quem tanta dor aguenta? Como pode?
Nem isto importa quando ouço lá fundo
setenta mil bandinhas de pagode...
Assinar:
Postagens (Atom)