segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Velório de Estrela


Exalando um clarão, dos olhos se emancipa
mais uma estrela velha avistada no mundo.
Vai-se, naturalmente, em fração de segundos,
sua história, sua luz; pras últimas dissipa...

Parece tudo em luto: o dia se antecipa
trazendo-nos, sem brilho, um horizonte ao fundo
triste e choroso ao tom dum cinza vagabundo.
(um velório no céu, que tudo participa)...

Como em caixão de morto espalham-se almofadas
aglomeram-se as nuvens: painas que se montam.
— Seria mais um gesto à estrela que se vela?

Um lampejo. Um trovão. Mil nuvens carregadas.
Presto atenção no céu — à chuva que se apronta:
— É, tudo em volta chora e ensaia uma querela...


domingo, 11 de dezembro de 2011

O Natal

Ah! O Natal.
Não o Natal dos jingles;
dos judeus, dos muçulmanos...
Não o Natal do nascimento de Jesus, de Javé,
João, Josias, Josué, Juca;
dos esfomeados, dos fartos, dos fatos,
dos amedrontados perus.

Aliás, sempre odiei peru.

O meu Natal!...
Onde as meias são rogos e qualquer barulho é de intruso...
— única época em que intrusos são bem-vindos.
Onde carrinhos vermelhos viraram sinônimos de azar.
Onde as mentiras fazem realmente bem.

(Ou não:
"— Papai Noel tá pobre este ano, meu filho..."
"— Mas ele nem joga no bicho como você, papai.")


Teve esta vez, nesta rua outrora repleta de crianças, onde um cometa passou em pleno Natal.
Rodopiava pelo céu o júbilo maior daqueles que creem:
o barbudo vermelho, autenticado aos nossos olhos.
Meu irmão, eterno esmagador de sonhos, dissera: “— É só um cometa.”
Mas inda assim, ignorando-o como se ignora um presságio de traição, continuei a viajar junto a outras crianças. Diziam: “é ele!” e tão logo estávamos especulando sobre sonho e realidade; trenós brilhantes e renas...
Uns mostrando o quão sensacionais eram seus brinquedos,
outros invejando os presentes alheios.

Ah! Meu Natal!
Pisca-pisca das lembranças do irreal.
Tem um cheiro de rabanada (e de avó);
um gosto adocicado de infância,
e esta pitada salgada de desilusão:

Ah, meu irmão... se cometas existem
é por este Natal que tudo se revela:
pode ser que não...


Osvaldo Fernandes

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Um Único Abraço


Viu-se abraçar o mundo, as nuvens parcas,
o céu e o caminho que seguiste:
viu-se deixar no metro o estado triste,
e seguir doravante — além-comarcas!

E dos caminhos tredos que saíste
dois, que sentes no cerne inda te encharcas:
O amor caçula que deixaste marcas
e o desamor que, após, te bipartiste:

— Ficar ou ir? Não sei! Que mais funciona?
Calmo ou feroz, sentado se questiona
como se questionasse o irrelevante...

— Não sabes?! Abre os braços! Sente o mundo;
e como o amor, conserva-te um segundo;
e como o desamor segue adiante...

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Desta Mudez Infinda

Ser, dos homens, o homem mais sincero
aquele que te amou pelo silêncio.
Palavras esvoaçam, as dispenso,
se, dentro em mim, das mesmas prolifero...

Ter, do silêncio, o verdadeiro e intenso
sentimento do qual nunca pondero:
numa mudez mostrar-te do que quero
noutra mudez mostrar-te ao que pertenço...

E se te não pertenço, eis a verdade:
sei mudo revelar sinceridade
mesmo se este silêncio é criticado!

Mas se te pertenci, por que é que minto,
se tudo do que sei, senti e sinto
foi que te amei demais, mesmo calado?...

Porquê, Amigo

Tenho esta necessidade de inexistir;
de cultuar a pequenez:
ser a sombra da sombra; o osso do osso,
pequeno... ínfimo. Micro!

Ser-me-ia insuficiente
o silêncio de um mudo:
quero a garganta invisível.

Quero a palavra alterada
a separação completa do erre, do esse
para que me evitem tachar de instigante
para que me evitem fonemas
para que me evitem.

Amigo, sou monótono,
por um simples porquê:
se me faço inferior,
é pra lhe vasto fazer
cá dentro em mim...

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Carolina


Os dias passam lentos, solitários;
E o sol parece ter a mesma idade
Enquanto palpa-a, palpa-me esta tarde
no mesmo mundo... e no mesmo horário...

Faço-a existir mesmo à anonimidade
e existo, enfim, num júbilo diário:
posso lhe ser amigo imaginário;
talvez, e mesmo oculto, uma saudade...

E toda noite quando a densa bruma
desenha-se por toda minha retina
resolvo de encontrá-la, Carolina!

Juntam-se, nos meus olhos, uma a uma,
num show de supernovas, mil estrelas!
E a noite é mais brilhante só por vê-la...

domingo, 18 de setembro de 2011

Da Vaziez Adulta


Toma, à memória, a estrada pueril;
da planta o oxigênio, o verde, o fúcsia.
Faz desejar nuns sonhos de pelúcia
que o ano seja aquele, aquele abril...

Refaze agora todo este percurso:
toma, à memória, a estrada pueril!...
Tal como revolvesses dum funil
traze ao peito de novo aquele urso...

Abraça-o, como sotrancasses tudo:
tivesses sonhos vastos e felpudos
que volitassem para teu agora.

Sente nas mãos esta pelugem fina!
Relembra-te o teu tempo de menina,
e pra adultícia oca volta... e chora...

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Recriando


Esfreguei a borracha no sol
até que sobrasse apenas o universo
– um poema que de fato eu escrevia –
Uma a uma, as estrelas foram se vestindo de versos.

Cartão Postal

Era uma vez o homem.
Em sua grandíssima aventura pelo mundo
viu-se espalhado por aí –
em todos os cartões postais
que houvesse dor...

Poeta de Byte

No dia em que acordei com o monitor ligado
e desjejuei de amor platônico
(uma princesa morena e dentuça
do reino das ânsias)
que me recordei:

Entrei em muitas batalhas
– de dificuldade dez –
ao entregar meu coração em papeizinhos.

(– Desista! Papéis são torturados pelas tesouras das bruxas.)

Sabe, nunca faltou tinta!,
e ao menos eu desplatonizava!
Pobre plebeu!

Pelo monitor é mais fácil.
Ela ao vivo é a medusa
Eu ao vivo um penedo,
aliás, monumento,
de um antigo poeta esferográfico.

Conversa Franca

Daqui a três mentiras me suicido
vou ter com Deus uma conversa franca!
Falar da manca
capacidade de falar (sem versos)
e perguntar-lhe sobre o Universo,
da realidade
– esta do Eu, ressequido –
e sobre a tal verdade;
e sobre ser,
ou jamais haver sido...

terça-feira, 9 de agosto de 2011

A Vela

A tudo luz, a tudo, esquenta o que há vizinho
e vai pingando a cera, e vai criando a sombra,
revelando também na velha alma da alfombra
um monte esbranquiçado, em que o calor faz ninho...

Como tinta que pinga e adere ao pergaminho
escreve junto a luz revelações que assombram;
fundindo no tapete histórias quando tomba;
escondendo à fumaça um cego ardor daninho...

O fim é seu destino! E ao chegar tal momento
o fogo inexpressivo, ao sopro de algum vento
revela um sofrimento, e morre, e a vela apaga!

E o que se parecia objeto inanimado
Não era! É como fosse espírito turbado
que fumegando amor se derretia em chaga!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Do Que Não Faz Feliz

Eu sou o homem mais feliz da Terra
porque a Terra é mais feliz comigo!
Quisera há muito tempo ter sabido
por um amigo,
por tudo onde erra
ou por outro qualquer!

Eu sou o homem mais feliz da Terra
esmaecido
se triste é uma mulher...

sábado, 23 de julho de 2011

A Graça

A graça é como um arco–íris vítreo:
beleza de mil cores que se encima
dos impudentes como fosse um ímã
de pólo triplo.

Vai resvalando as cores como um vício
inventado à visão por puro tédio
diz-se melhor pros olhos que remédio,
mas é suplício!

Se a graça é este arco-íris fantasista,
e as sensações, as mil cores que brilham
só resta-me esquecer destas estilhas
presas na vista...

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O Mais Verdadeiro Canto

Dos cantos cultuados no meu peito
Quer na inflação, quer na taquicardia
Por trás dos meus poemas foste um dia
sem votação, de afã, o único eleito!

O que tivera um verso carnifeito
Do mágico animal que desvaria
escondido na ação do meu dia-a-dia
que, só, se diz e faz por satisfeito...

Da musa soçobrada na saliva
Impetuosa, vil, viscosa e clara
foi canto verdadeiro que me ampara:

uma obra de fabulação sativa;
essência impressa e expressa, pois, mais viva
que só com poesia se compara...

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Da Promessa

Prometi pela rosa;
pela natureza
e pelo sopro vital
que seria eu, o homem.

Prometi pelo espinho;
pela escuridão
e pelo vendaval
que continuaria, eu, o homem.

Prometi pelos corações,
de vozes esganiçadas
e pulsos sensíveis
que lhes seria, eu, único.

E fui, e sou
de uma mulher, somente...

Prometi, e hoje,
com o peito quente
pago esta promessa:
trago novamente
no teu peito, preso,
meu coração
e te renasço homem...

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Bumerangue

é um poema –
um bumerangue:

enquanto lança a dor
no peito renasce

retorna o sangue
retorna a cor

como se retornasse
à mão do lançador...

domingo, 22 de maio de 2011

Do Amor

Não é uma pessoa;
não está no outro;

não pode estar, senão
a sós... adentro em nós!

Se se permite sem
impor-lhe algum limite,

sem limite nos é!

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Lei do Homem

Sou em mim uma Nação
desenvolvida por aqueles
que reconheço:
não trafegam pelo acostamento;
ou se atrasam aos sinais verdes.

Sou em mim, também
as leis que a regem;
e desaventurados
os que não as conhecem
e os irreconhecíveis:
os que politicamente
são eleitos
por votos de beleza.

Sou em mim uma Nação inteira.
E patriotas são-me, apenas,
os que seguem a lei do amor...

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Estória da Carochinha

Há nela um quê
de protagonista,
mas quer amar:
amar desamando...

Para mim, bastaria beijo,
cafuné,
e xis de canela.

Mas não para ela:
trai o marido,
quantas vezes pode.

Cada sarda exposta
é uma estrela que sacode
e apaga
no céu do casamento.

Meu pensamento
(mero coadjuvante)
vira cometa:
faz arder
e me colapsa...

Acabo de figurante
nesta sua história
(da carochinha...)

E no que era uma vez
fui feliz,
para
corno sempre...

Das Quantidades

Pois quando então sentires teu espaço
taciturno e sombrio
estica o braço, e tudo que houver dentro
será menos vazio:

Alonga estes teus braços! Vai a oeste!
Vai a leste também!
E deixa que eles errem no infinito
para o além do além.

Transpassa o horizonte, o azul, as pretas
matérias dos espaços!
Dedilha, por Andrômeda, planetas
dedica-os teus abraços!

Distende! Deixa o toque vigoroso
sentir o que inexiste...
E perde-te no desconhecimento
daquilo que te existe.

Volta! Vem escrever dos inescritos
e não sabidos astros.
E considera a ti, nos teus escritos:
te reconhece vasto!

Volta contigo dentro. Traz também
o braço longo e estranho,
a pequenez, e tu, como voltasse
para o mesmo tamanho.

O Esteta

Vieram me contar que sou esteta,
passadista e barbudo.
De fecho éclair nos lábios,
as vozes dos livros abriam
as bocas de Augusto;
do Rosinha;
seu Camões...
mas só pensava, eu, nos limões
derramados
por sobre minha única
e aparente identidade.

Já me desistindo
pulei no lixo,
lambi uma puta inteira,

– cortesã... pensaria outrora. Aliás
até Outrora pensaria outrora –


cheirei um gato morto,
e comprei um barbeador.

Voltei. Sou esteta!
Fiz da barba o charme
e do barbeador
um verso sujo.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Pobre Imensidão

E houve o Big Bang... e houve o universo...
as estrelas, o sol, as supernovas
Andrômeda, vizinha destes versos,
rege os planetas como eu giro as trovas:

uma calcula os países:
– eis que são mais que duzentos!
das ilhas, uma outra conta:
– noves fora. é oitocentos!


E houve pessoas, mar, rios diversos...
(a imensidão – que é cada – mais comprova
sua impressão de infinda quando imerso
é o finito nas coisas que a renovam)

e voltando àquelas trovas:
– os sete mares reboam!
uma última arremata:
– há seis bilhões de pessoas!


Houve! E haverá bem mais(!) em cada cada;
centenas de países, gentarada
na lei da imensidão: crescer, crescer!...

E dentre o crescimento mais fecundo
e bilhões de pessoas deste mundo
parece eu precisar só de você...

terça-feira, 12 de abril de 2011

Na Aurora do Amor

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 "Quando nasce, o amor, em si,
renasce, pois, nas coisas;
e as cores são cirandas..." – Osvaldo Fernandes

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Um grilo bóia na água
e prata é verde musgo.
Há gavião nefando
invisível na sombra.

– Um sapo sai voando?

A arcaria de cores
pro céu, vai-se, lançando...

o céu chora... pras flores

Escondida entre as nuvens
(nas almofadas alvas)
trabalha a Estrela d’alva
e o branco agora é brilho!

e ouve-se um estribilho:

Asas de borboletas
ruflando, outrora pretas,
trazem mil coloridos
ao dia que desperta.

e tudo é luz e cor...

Pela janela aberta
pousando em nossas íris,
roubando, do arco-íris,
um vermelho de amor...

e ouvem-se mais canções:

São borboletas, grilos;
são sapos, gaviões,
que outrora eram só cores,
e agora... corações...

quarta-feira, 30 de março de 2011

A Lua e Eu

Conversando com a Lua
pus-me à rua,
pus-me à rua silenciosa.
Entreguei-lhe o que me amua
como sua,
como sua melhor prosa.

Tal corisco na caligem
vem, me inflige,
vem, me inflige um frio morno.
Seu sorriso me dirige
na fuligem,
na fuligem de um adorno.

Conto-lhe as mágoas, anseios,
devaneios,
devaneios mais dantescos.
Deixo o mundo, titubeio
no seu seio,
no seu seio gigantesco.

De manhã vejo o desleixo
quando a deixo,
quando a deixo e vou-me embora.
Como em todos os desfechos
que me queixo,
que me queixo ter memória.

Eis que a noite, n’outro dia
bem mais fria,
bem mais fria então me prova:
Lua negra, em agonia;
tão vazia!
Tão vazia... a Lua Nova.

Tão mais nova que os amores;
dos horrores,
dos horrores que explanei.
Passam luas, noites, dores,
mas as Flores,
mas as Flores... eu não sei!

domingo, 27 de março de 2011

É Tempo

É tempo, vem, ó meu amor, agora
que tudo é nuvem, vem, de amor volante,
(o céu parece um timpanão troante)
Que a chuva cai sem que se saiba a hora.

Vem que te espero apenas neste instante
(um tom maior por todo anil vigora)
Vem que o teu pouso o meu regaço implora!;
Que o timpanão do céu te tange ovante!

Vem logo! O céu, Amor, ficando escuro
querer, parece, te afastar do chão
o mesmo chão de terra e sonhos puros!

Pousa. Beija-me! E veem-se então centelhas
um relâmpago ávido se esguelha
e estoura um som maior que do trovão!

quinta-feira, 24 de março de 2011

Canto Choroso

O telefone toca. Lá na praia
põe-se a correr, enfim, pro último abraço.
Tropeça o coração, pulsa à cambraia
translúcido terror em cada passo.

Toma na mão, nos braços e desmaia.
Subverte a própria alma de cansaço.
Deita seu filho morto ao colo e ensaia
o mais choroso canto de um regaço.

– Por que meu filho (ainda enlouquecida)
levaste, Ó Mar? Por que levas as vidas?
Por que do que há mais belo Tu me privas?

Só o silêncio respondia, quando
ouviu-se lá do mar, rumorejando
dum marejante canto, uma água-viva!...

Das Distâncias Das Almas

Não te dispersas de tu’alma.
Deixa-a junto,
mas não muito perto
pois que, se distante
sobra-te o perigo;
próxima demais,
doença...

Sobreviventes

Não há sobreviventes sem adeus.
Os que ciclos trincam, seguem
na linha tortuosa.
E o adeus vira vinco;
e em cada vinco,
fica uma história
sobre viventes...

terça-feira, 15 de março de 2011

O Que Me És

És para mim, como num céu viçando
suas luas que me banham comichosas
a quinta fase: escura e luminosa;
amorfa , sensual, sem onde ou quando.

És mais do que pra mim: sou eu sanando
ao ritmo musical de mil felosas
que aterrissam cantando sobre as rosas;
os ninhos; sob a lua, afim, cantando...

És para mim, e inteiramente és
tal como a terça parte do equilíbrio;
um corpanzil plumoso de um anfíbio;
o céu telúrico onde eu calco pés!

Tu és(!), mas só pra mim – pobre poeta
régulo excelso das terras do bardo
parido em flor mas do Lácio bastardo –
a transcriação a que cultua o esteta!

Tu és a impressão imaginária
porque se vais ainda que não vás;
porque me ficas mais do que estarás
nas minhas noites mais que solitárias...

Em qualquer tempo me és enluarada!
Não mínguas, não és cheia, não és nova,
Mas enquanto houver céu, haverá a prova
crescente que em meu céu há mais que nada!

Sapatos Velhos

O sapato velho
da sola furada
fez descolar...
o caminho.

Da Dor

A dor é alarido de minh’alma
chamando a mente a animação do corpo.
Chamando aquele eu representado
nos monstros que me acordam de repente
e com suas garras, mil momices, dentes,
fazem medrar a morte em cada instante.

A dor é outro eu, mais dominante,
a revolta do ar contra o que inspira:
desfraldado na mente adentro a testa,
uma enxaqueca d’alma, o triste em festa,
é exacerbação desafinada
da mais suave e temerosa lira
ouvida por um lídimo Pierrô.

A dor é outro Osvaldo e eu, sou nada,
mas nada que me fira é mesmo dor...

quinta-feira, 10 de março de 2011

J'ai Perdu

Il fut un temps
au beau milieu de l'Amour.
Et au milieu de l'amour
il fut un temps.

J'ai perdu du temps
aimer l'amour...
et l'amour;
aimer le temps!...

terça-feira, 8 de março de 2011

Soçobro

Soçobro
porque sobro e não me espalho.
Como espantalho dobro minha inércia
que cobra a beça à vida o sofrimento.

Soçobra o nauta
transformado em pedra.

Se pauta uma certeza é porque quebra
e cada febra emerge à maré alta:
é todo o nada negro num momento;
é mar inteiro, essência... e movimento..

Gás Nobre

És um gás nobre.
Não vejo a coroa
não chamo princesa
ou rainha.
Duquesa? Até poderia
mas és só um gás,
e gases dissipam
enquanto fico eu
com a mão no invisível
e o peito referto
de toda tua nobreza...

Relógio

Discuto com o relógio os tiques – brados:
que giro tão fugaz? Quantos invernos,
passariam por mim, se confiado,
dos gélidos, o gelo mais superno?

Mensuras meu calor quando eu hiberno!...
servindo-se dos mares mais pesados
ardores, que jamais, em mil infernos,
teria um tsunami de pecados!

Se todo o calor vivo é um lucivéu
postando-se supremo pelo céu,
que queres mensurar do sol, instância?

Tentas medir-me se estou acordado,
porém, do tempo quente ou do gelado,
só quem pode medir é minha ânsia!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Liquefeita

Ela é assim,
imponente e líquida.
Vem vindo, vem vindo...
E tudo quanto a ela quero findo;
e quando quero muito nosso fim,
empurro o que há em mim com tanta força
e vejo que sou só cólera lassa...
pois quanto mais a empurro
mais ela transpassa...

Partiu-se-me

Partiu.
Não sei que idade eu tinha.
Se 18 ou mais.

Partiu. Deixou-me atrás
das tortuosas linhas.

Da senda que partiu
eu não vivi;
sequer andei,
mas inda ouço suas pegadas;
inda vejo-o misturar-se,
às flores dos atalhos.

Não sabe dos espinhos.
Não sei bem seus caminhos,
por onde andou, não sei
ou mesmo o quanto andado.

Mas sei quando partiu:
se para, eu sobrevivo;
se vive... estou parado...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Retirante da Alma

Os Retirantes - Cândido Portinari

Tão cândido o sertão pra mim parece
Quando não calco os ossos da penúria,
E não ouço louvarem nas alturas
Os urubus à minha carne, em prece.

Não quero este sertão, nem me apetece,
Sentir deste temor, da vida dura,
Porque destas imagens de pintura
Nada mais que pintura se oferece.

Os seres cadavéricos que fito
Num tom meio sombrio – são só cores
mescladas por uma alma angustiante...

Que nem mesmo – confesso – fico aflito...
É que, por sorte, a todos os horrores
desta alma em que nasci, fui retirante!

Baú de Despejos

(a Reinaldo Luciano)

Fui saciar, no sebo, um dos meus vícios:
de ler, e me aprazer – me traz alento.
Achei perdido e rofo, no interstício,
um papiro amassado e poeirento...

Rutilava! Minh'alma o refletia.
Mal sabia: era a luz da sapiência.
Quão belo o manuscrito em poesia
feita em versos de mera competência!

Tirei-o do baú onde o encontrei
Li cada verso! Como os degustei
tal Rei da poesia a olhos nus:

A lira dum espírito doirado
qual parecia o Nume despejado
ou talvez fosse o próprio, no Baú!...

Ânsia de Amar

Numa ânsia de se amar sem limiar
o ser humano perde sua visão.
De mãos cheias na pá da piração
enterra a vida, cego e tumular!

Os olhos vão-se em ânsia e dispersão,
como se vão as mãos d'alma a apalpar
por vezes, o que nunca estará lá:
o grão do amor lavrado em solo são!

A ânsia de se amar nasce do Ego:
patrão dos olhos, iludidos, cegos;
nascente das suas gotas mais salgadas!

Mas se, caso ansiando o amor, me pego
choro o choro mais doce se o não nego;
lavro a melhor semente já plantada!...

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Teu Homem Perfeito

Um homem que te ame, que te adore
Que a sirva numa louça de Veneza
Um homem que enalteça tua beleza
Que por ti ria, grite, e também chore!

Um homem que não há na Natureza;
que mais pareça conto de folclore!...
que só por lhe sorrires comemore;
se vanglorie em ter uma princesa!...

Amar um homem, tê-lo por inteiro!
É o que mulher deseja em tempo infindo;
Charmoso, inteligente, rico... lindo!

Terá do amor supremo e verdadeiro
tal homem que há de amar-te. Todavia
se nunca o amares... tu? Nem por um dia!

Longe, Longe...

Vives fora, longe...
longe...
onde um monge não medita;
onde o sol lhe traz mais cor
onde o toque se acredita
longe, longe!
Vives fora! Ó minha Flor.

Lá as flores não tremulam
cada nuvem se há pausada!
Mas a tua voz airada,
diamantes, quando ululas
sinto e vejo
longe, longe,
minha Flor.

Acolá, tão longe...
longe...
Há meu céu, o novo tempo;
há, por entre ventos, Vento,
que barganho com a aurora
pois lá fora,
longe, longe,
a distância é mais que a hora,
e o presente
é minha Flor.

Mais presente é ter o Vento,
“– Ó meu Vento ide longe,
longe, longe!
Guiai-me no céu, no lume:
esta Flor; e justaponde
teu perfume em meu perfume!
Transportai-me teus pedaços!”
pois que ter de ti o abraço,
longe, longe
só no tempo
em que o Vento
for o Amor...

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Fomentação

Criou-se desta orelha qual ungiste:
recordações em mim que – mal passadas –
tomaram vida, decolando aladas
de inconsciência rude que brandiste.

E alado um tempo, uma paixão, um chiste,
uma razão de ser, voando, aladas
trouxeram-me de volta, ruminadas
reminiscências da paixão mais triste!

E criou-se, desta orelha, fomentando,
a mais excelsa e suave cantoria
que possa o amor furtar da cotovia!

Criou-se!... E em mim o amor, criou-se, quando
levaste, das orelhas, tuas mãos
e sotrancaste nelas tua canção!

O Larápio

Arrancava de mim todos os quandos:
a base era buraco, o teto era asa
e tudo em brasas se me convergia
líquidos, como lavas, derramando
dentro às veias do corpo em todo quando.

Arrancava de mim toda energia:
do trabalho; da essência, até do sono
como se fosse o dono desta casa
erguida de imatura alvenaria
duma assaz construção desta energia.

Arrancava de mim toda atenção:
os pássaros; a cor – era o gatuno,
um sentimento uno de magia;
uma alquimia para o coração
que convergia em si, toda atenção...

Arranca, pois, Larápio, tudo é teu!
os devaneios; pensamentos, risos
a loucura, o juízo, a poesia!...
E faze acreditar que não morreu
o eu que havia em mim, quando fui teu...

Entre Sonho

Sonhava dizer-te adeus neste dia:
O sol despontava fulvo lá fora
De luz e calor tua graça se ungia,
– Que linda, perfeita, a minha senhora!

Não pude mentir-te enquanto bem via
Descendo as escadas, naquela hora,
Tomada de sol, vestida de aurora
Meu peito pulava e amor eu sentia.

E o quanto eu sentia! E quanto te olhava!
Sentia e olhava. Olhava e sentia
A dor que causava quando eu dizia:

“– Estou indo embora. Adeus, ó Senhora
Tomada de sol, vestida de aurora!”
E enquanto eu partia, o peito pulava...

E então despertava. E a aurora nascia!...
Parida em teu rosto; untando os cabelos:

“– Se adeus te dissesse, Ó minha senhora
Serias tu, sonho, e eu só... pesadelo!...”

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Espumas II

Qual fonte da amplidão e brota de friagem;
Da alvura luxuosa e alegre sendo a fronte
Vê-se parir na areia, advindas do horizonte,
As vagas, suas crianças, mães da paisagem:

Atônitos, honrando-a, as lapas mais os montes
de almiscarado brilho, esplende esta miragem:
Na falda um verde-cré alvíssimo interage
Mesmo antes que alvorada ao píncaro desponte...

E lá se vêm felizes, doudas, a mancheias,
trazendo a maresia, estando uma por uma,
dispersas pela vaga; estendidas na areia.

Sentado, da colina, escrevendo das frondes
Um colossal sorriso eu largo a olhar espumas:
as crianças do mar brincando um pique-esconde...

domingo, 16 de janeiro de 2011

Entre Chuvas e Ninos

Lá fora a chuva tenra nos ninava.
Em nosso leito, mais de ti sentia
O teu sorriso, a tua alegria!
Adormecias. Teu sonho eu sonhava.

Sonhava! E em teu cabelo agrisalhava
O negro jovial que amei um dia,
Lembrava que fitando-te eu sorria,
E quanto mais sorrindo, eu te lembrava...

Tudo passou! Mas quando a chuva canta
Mesmo que solitário no meu leito
Uma lembrança indene se agiganta:

O meu sorriso mágico e um nino;
A alvura das madeixas no meu peito;
O dia cinza. O amor. Tu... e um menino...

Som dos Sinos

Por mil caminhos vadiando torto,
de calejado passo, o pé franzino
se doravante, mais parece morto;
se preso à senda que passou, mofino...

Mas eis que ao solto andejo, só e absorto,
junto ao meu passo, tilintando sinos,
ouço do amor e dos seus sons, conforto,
no interior como brincasse um nino...

Vi-a sentada. Seu olhar fincado
no meu olhar, cá dentro ouvi bramindo
esta algazarra angelical benquista!

– Qual é seu nome, ó Carrilhão soado?
Interroguei-lhe adentro, já sorrindo:
– Chamam-me amor... quando à primeira vista!